Questão nº 9

Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT22 2022 (nº 9)

FCC2022Analista Judiciário - Área Judiciária - Especialidade Oficial de Justiça Avaliador FederalLíngua Portuguesa
Gabarito: Dver comentário ↓

Atenção: Para responder às questões de números 9 a 13, leia o texto de John Gledson.

Na década de 1880, Machado de Assis publicou cerca de oitenta contos, numa espantosa explosão de criatividade, que também rendeu seu primeiro grande romance, Memórias póstumas de Brás Cubas (1880).

Como isso aconteceupor que aconteceu, e por que nesse momento? Nada é mais difícil de explicar do que a explosão de um gênio criadore não devemos duvidar que é disso que se trata. Contos podem parecer fáceis, escritos algo apressadamente como uma espécie de subproduto de um trabalho mais sério ou até como sintomas de uma incapacidade passageira de empreender “obras de maior tomo” (palavras de Dom Casmurro), mas nada está mais longe da verdade. Contos não são romances imperfeitosexistem com seus direitos próprios, e quando Machado começou a escrever os seus melhores, o gênero estava conquistando uma nova dignidade.

O traço mais importante de seus contos é a ironia, com frequência fixada por um estilo que muitas vezes emprega certo registro de linguagem a fim de estabelecer, desde a primeira palavra, que nada ali é para ser levado inteiramente a sério, que aquilo não é a fala direta do autor: “A coisa mais árdua do mundo, depois do ofício de governar, seria dizer a idade exata de Dona Benedita”. Machado podia parodiar qualquer tipo de linguagem, da Bíblia à dos jornais (essa, de fato, era a que satirizava com mais frequência). No começo dos anos 1880, Machado não só estabelecera seu direito a falar do universo, mas também principiara a fazer o retrato da sociedade brasileira sob uma luz inteiramente nova. Os romances bem-educados dos anos 1870, que elevavam a vida social, deram lugar à sátira selvagem de Memórias póstumas de Brás Cubas*, que mostrava realidades* − adultério, prostituição, escravatura, o tratamento dado aos agregadoscom uma nitidez e uma cólera inteiramente impossíveis alguns anos antes.

Uma coisa é certa: a expansão do material possível de Machado e o distanciamento irônico que ele adota são inseparáveis. Digamos assim: se ele não tivesse encontrado modos dos mais variados (irônicos, sarcásticos, mas sempre semiocultos) de se expressar a respeito de coisas sobre as quais não devia falar, ou às quais só podia se referir de soslaio, suas histórias jamais teriam existido; podemos sentir sua satisfação quando se aproxima de outra questão espinhosa e acaba encontrando novas maneiras de falar sobre coisas demasiado embaraçosas para mencionar diretamente. Na minha opinião, isso ajuda a explicar o êxito de seus contosMachado caminhava no fio da navalha.


Machado caminhava no fio da navalha. (4º parágrafo)
Na frase acima, Gledson indica que Machado de Assis

Este texto de apoio vale também pra questão nº 10, questão nº 11, questão nº 12, questão nº 13.

Resposta comentada

Gabarito Alternativa D

O conceito-chave é que a expressão "caminhar no fio da navalha" significa estar em uma situação delicada e arriscada, exigindo extremo cuidado. No texto, ela se refere à forma como Machado de Assis tratava temas sensíveis.

  • (A) Incorreta: Embora o distanciamento irônico seja mencionado como meio de retratar a sociedade, o "fio da navalha" está mais ligado à delicadeza de abordar os temas em si, e não apenas à convicção sobre a eficácia do método para um "caráter irresoluto".
  • (B) Incorreta: O texto menciona a capacidade de Machado de parodiar diferentes linguagens, mas o "fio da navalha" não se refere à oscilação de estilo, e sim ao risco e à cautela na abordagem de certos assuntos.
  • (C) Incorreta: Não há menção no texto sobre Machado evocar memórias afetivas ou o valor da experiência individual como significado de "caminhar no fio da navalha".
  • (D) Correta: O parágrafo anterior à frase explica que Machado encontrava "novas maneiras de falar sobre coisas demasiado embaraçosas para mencionar diretamente", ou "coisas sobre as quais não devia falar, ou às quais só podia se referir de soslaio". "Caminhar no fio da navalha" resume essa delicadeza e risco em abordar temas constrangedores de forma indireta.
  • (E) Incorreta: O texto não associa o "fio da navalha" ao desagrado de um público conservador ou à necessidade de conquistar a atenção, mas sim à habilidade de tratar assuntos espinhosos de forma indireta, o que, inclusive, ajudou a explicar o "êxito de seus contos".

Fonte: FCC TRT22 2022 Analista Judiciário - Área Judiciária - Especialidade Oficial de Justiça Avaliador Federal (Caderno Tipo 2). Reproduzida para fins de estudo.

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