Questão nº 11
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT22 2022 (nº 11)
Atenção: Para responder às questões de números 9 a 13, leia o texto de John Gledson.
Na década de 1880, Machado de Assis publicou cerca de oitenta contos, numa espantosa explosão de criatividade, que também rendeu seu primeiro grande romance, Memórias póstumas de Brás Cubas (1880).
Como isso aconteceu − por que aconteceu, e por que nesse momento? Nada é mais difícil de explicar do que a explosão de um gênio criador − e não devemos duvidar que é disso que se trata. Contos podem parecer fáceis, escritos algo apressadamente como uma espécie de subproduto de um trabalho mais sério ou até como sintomas de uma incapacidade passageira de empreender “obras de maior tomo” (palavras de Dom Casmurro), mas nada está mais longe da verdade. Contos não são romances imperfeitos − existem com seus direitos próprios, e quando Machado começou a escrever os seus melhores, o gênero estava conquistando uma nova dignidade.
O traço mais importante de seus contos é a ironia, com frequência fixada por um estilo que muitas vezes emprega certo registro de linguagem a fim de estabelecer, desde a primeira palavra, que nada ali é para ser levado inteiramente a sério, que aquilo não é a fala direta do autor: “A coisa mais árdua do mundo, depois do ofício de governar, seria dizer a idade exata de Dona Benedita”. Machado podia parodiar qualquer tipo de linguagem, da Bíblia à dos jornais (essa, de fato, era a que satirizava com mais frequência). No começo dos anos 1880, Machado não só estabelecera seu direito a falar do universo, mas também principiara a fazer o retrato da sociedade brasileira sob uma luz inteiramente nova. Os romances bem-educados dos anos 1870, que elevavam a vida social, deram lugar à sátira selvagem de Memórias póstumas de Brás Cubas*, que mostrava realidades* − adultério, prostituição, escravatura, o tratamento dado aos agregados − com uma nitidez e uma cólera inteiramente impossíveis alguns anos antes.
Uma coisa é certa: a expansão do material possível de Machado e o distanciamento irônico que ele adota são inseparáveis. Digamos assim: se ele não tivesse encontrado modos dos mais variados (irônicos, sarcásticos, mas sempre semiocultos) de se expressar a respeito de coisas sobre as quais não devia falar, ou às quais só podia se referir de soslaio, suas histórias jamais teriam existido; podemos sentir sua satisfação quando se aproxima de outra questão espinhosa e acaba encontrando novas maneiras de falar sobre coisas demasiado embaraçosas para mencionar diretamente. Na minha opinião, isso ajuda a explicar o êxito de seus contos − Machado caminhava no fio da navalha.
Leia as afirmações abaixo.
I. No trecho Machado podia parodiar qualquer tipo de linguagem, da Bíblia à dos jornais, (3º parágrafo) o emprego da crase se deve à supressão da palavra “linguagem”.
II. O emprego da crase é facultativo em às quais só podia se referir de soslaio. (4º parágrafo)
III. No trecho acaba encontrando novas maneiras de falar sobre coisas demasiado embaraçosas (4º parágrafo), a palavra sublinhada foi empregada como adjetivo.
Está correto o que se afirma APENAS em
Este texto de apoio vale também pra questão nº 9, questão nº 10, questão nº 12, questão nº 13.
- AII.
- BI e II.
- CI. (alternativa correta)
- DII e III.
- EI e III.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
A crase é a fusão da preposição "a" com o artigo definido feminino "a" (ou "as"), ou com os pronomes demonstrativos "a" (ou "as"), "aquele", "aquela", "aquilo". Ela ocorre quando um termo regente (verbo, nome ou adjetivo) exige a preposição "a" e um termo regido (substantivo feminino, pronome demonstrativo) aceita o artigo "a" ou é um dos pronomes demonstrativos que iniciam com "a".
(A) Incorreta: A crase antes de pronomes relativos como "quais" é obrigatória quando o verbo exige a preposição "a" e o pronome se refere a um substantivo feminino. O verbo "referir-se" exige a preposição "a" ("referir-se a algo/alguém"), e "quais" refere-se a "coisas" (feminino plural). Portanto, "às quais" é de uso obrigatório, não facultativo.
(B) Incorreta: Esta alternativa combina uma afirmação correta (I) com uma incorreta (II), tornando-a incorreta no geral.
(C) Correta: No trecho "da Bíblia à dos jornais", a estrutura "de... a..." exige a preposição "a". A expressão "dos jornais" subentende "linguagem dos jornais". Assim, temos a preposição "a" (exigida pela estrutura) e o artigo "a" (que acompanha o substantivo feminino "linguagem", mesmo que elíptico). A crase ocorre pela fusão da preposição "a" com o artigo "a" que precede o substantivo feminino implícito "linguagem".
(D) Incorreta: Esta alternativa combina duas afirmações incorretas (II e III), tornando-a incorreta no geral.
(E) Incorreta: Esta alternativa combina uma afirmação correta (I) com uma incorreta (III), tornando-a incorreta no geral. No trecho "demasiado embaraçosas", a palavra "demasiado" está modificando o adjetivo "embaraçosas", indicando intensidade. Palavras que modificam adjetivos são advérbios, não adjetivos. "Demasiado" aqui significa "muito" ou "excessivamente".
Fonte: FCC TRT22 2022 Analista Judiciário - Área Judiciária - Especialidade Oficial de Justiça Avaliador Federal (Caderno Tipo 2). Reproduzida para fins de estudo.