Questão nº 5
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT2 2025 (nº 5)
O estranho ofício de escrever
Éramos três condenados a escrever uma crônica diária em jornal: Rubem Braga no Diário de Notícias, Paulo Mendes Campos no Diário Carioca e eu no Jornal do Brasil. Um dia, numa hora de aperto, o Rubem perdeu a cerimônia: - Será que você não teria aí uma crônica pequeninha para me emprestar? Procurei uma e lhe cedi uma que talvez servisse.
Tempos depois chegou a minha vez, e perguntei ao Rubem se não tinha uma crônica usada para servir a este seu amigo. Pois não é que ele me passou a crônica que eu lhe havia cedido? Sou pobre, mas não sou soberbo. Ajeitei a crônica como pude, toquei-lhe uns remendos.
De toda crônica que publiquei na vida, houve sempre um leitor para achar que era a melhor e outro a pior que já escrevi. Nunca me esqueci do dia em que o Carlos Castello Branco me disse: - Eu, se fosse você, parava um pouco. Essa sua última crônica estava de amargar.
Parei dois anos por causa disso.
Quando recomecei, vez por outra recauchutava um escrito antigo, à falta de coisa melhor. Até que chegou o dia em que no meu estoque não restava senão uma, jamais republicada - justamente aquela que o Castelinho havia estigmatizado com seu implacável juízo crítico. Pois não é que veio ele me dizer, efusivo, a propósito da mesmíssima crônica: - É das melhores coisas que você já escreveu.
Havia-se esquecido, o mandrião. E por causa dele eu passara dois anos no estaleiro.
Quando lhe acusei a contradição, ele não se perturbou: - Agora achei boa. Ou a crônica melhorou, ou eu é que piorei.
Está adequado o emprego do elemento sublinhado na frase:
- AO correto julgamento crítico ao qual muitos se arvoram não é tão comum sequer entre os escritores.
- BOs equívocos de julgamento em cujos muitos são vítimas podem comprometer uma carreira.
- COs amigos cronistas trocavam crônicas de cuja falsa autoria, no entanto, nenhum leitor poderia suspeitar. (alternativa correta)
- DOs reparos críticos de que Castellinho aplicou à crônica de Sabino chegaram a abalar seu autor.
- EO paradoxo de julgamento com o qual seu amigo Castellinho incorreu foi bem lembrado por Sabino.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
A regência é a relação de dependência entre um termo (regente) e outro (regido), que pode exigir uma preposição específica. Pronomes relativos (como que, quem, cujo, onde, o qual) retomam um termo anterior e introduzem uma oração subordinada, e a preposição que os acompanha é determinada pela regência do verbo ou nome da oração subordinada.
(A) Incorreta: O verbo "arvorar-se" (no sentido de atribuir-se, assumir-se) rege a preposição "em", não "a". O correto seria "em que" ou "no qual".
(B) Incorreta: A expressão "ser vítima" rege a preposição "de" ("ser vítima de algo"), não "em". Além disso, o pronome "cujos" indica posse e não se encaixa bem no contexto de "vítimas de".
(C) Correta: O pronome relativo "cuja" concorda em gênero e número com "autoria" (feminino singular) e a preposição "de" é exigida pela regência do verbo "suspeitar" ("suspeitar de algo").
(D) Incorreta: O verbo "aplicar" no contexto ("Castellinho aplicou os reparos críticos") é transitivo direto em relação a "reparos críticos". Objetos diretos não são introduzidos por preposição; portanto, a preposição "de" é indevida. O correto seria apenas "que". A armadilha aqui é a confusão comum entre objeto direto e indireto, onde a preposição "de" é erroneamente adicionada a um pronome relativo que retoma um objeto direto.
(E) Incorreta: O verbo "incorrer" rege a preposição "em" ("incorrer em algo"), não "com". O correto seria "em que" ou "no qual".
Fonte: FCC TRT2 2025 Conhecimentos Comuns (Área Judiciária TRT2 2025) (Caderno Tipo 005). Reproduzida para fins de estudo.