Questão nº 2
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT2 2025 (nº 2)
O estranho ofício de escrever
Éramos três condenados a escrever uma crônica diária em jornal: Rubem Braga no Diário de Notícias, Paulo Mendes Campos no Diário Carioca e eu no Jornal do Brasil. Um dia, numa hora de aperto, o Rubem perdeu a cerimônia: - Será que você não teria aí uma crônica pequeninha para me emprestar? Procurei uma e lhe cedi uma que talvez servisse.
Tempos depois chegou a minha vez, e perguntei ao Rubem se não tinha uma crônica usada para servir a este seu amigo. Pois não é que ele me passou a crônica que eu lhe havia cedido? Sou pobre, mas não sou soberbo. Ajeitei a crônica como pude, toquei-lhe uns remendos.
De toda crônica que publiquei na vida, houve sempre um leitor para achar que era a melhor e outro a pior que já escrevi. Nunca me esqueci do dia em que o Carlos Castello Branco me disse: - Eu, se fosse você, parava um pouco. Essa sua última crônica estava de amargar.
Parei dois anos por causa disso.
Quando recomecei, vez por outra recauchutava um escrito antigo, à falta de coisa melhor. Até que chegou o dia em que no meu estoque não restava senão uma, jamais republicada - justamente aquela que o Castelinho havia estigmatizado com seu implacável juízo crítico. Pois não é que veio ele me dizer, efusivo, a propósito da mesmíssima crônica: - É das melhores coisas que você já escreveu.
Havia-se esquecido, o mandrião. E por causa dele eu passara dois anos no estaleiro.
Quando lhe acusei a contradição, ele não se perturbou: - Agora achei boa. Ou a crônica melhorou, ou eu é que piorei.
As normas de concordância verbal estão plenamente observadas na frase:
- AÉ comum haverem no mundo das crônicas de jornal hábitos de trocas de autorias que não podem leitor nenhum desconfiar.
- BNão cabem aos cronistas amigos recusar essa troca de crônicas quando lhes falte a inspiração de textos criativos.
- CSão de se supor que os cronistas dediquem-se sempre a escrever textos originais, eximindo-se de repeti-los.
- DInclui-se entre os hábitos dos cronistas camaradas a possibilidade de virem a se valer de um banco comum de crônicas. (alternativa correta)
- EVeem-se nas reações espantadas de Sabino o inconformismo diante das ambivalências do seu amigo Castellinho.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
A concordância verbal exige que o verbo (a ação) combine em número (singular ou plural) e pessoa (eu, tu, ele, nós, vós, eles) com o seu sujeito (quem pratica ou sofre a ação).
(A) Incorreta: "haverem" está errado; o verbo "haver" no sentido de "existir" é impessoal e deve ficar sempre no singular ("haver").
(B) Incorreta: "cabem" está errado; o sujeito é a oração "recusar essa troca de crônicas" (que tem valor de singular), então o verbo deveria ser "cabe".
(C) Incorreta: "São" está errado; a oração "que os cronistas dediquem-se..." funciona como sujeito oracional, exigindo o verbo "ser" no singular ("É de se supor").
(D) Correta: O sujeito de "inclui-se" é "a possibilidade de virem a se valer de um banco comum de crônicas". O núcleo do sujeito é "a possibilidade", que é singular, e o verbo "incluir-se" concorda corretamente no singular. O infinitivo flexionado "virem" concorda com "os cronistas" (implícito, referindo-se a "dos cronistas camaradas"), que são o sujeito da ação de "valer", estando também correto.
(E) Incorreta: "Veem-se" está errado; o sujeito é "o inconformismo diante das ambivalências do seu amigo Castellinho". O núcleo do sujeito é "o inconformismo" (singular), então o verbo "ver-se" deveria ser "Vê-se". A armadilha da banca aqui é colocar o sujeito depois do verbo e no singular, enquanto o verbo está no plural, levando o aluno a pensar que "nas reações" seria o sujeito ou que o verbo deveria concordar com algo plural próximo.
Fonte: FCC TRT2 2025 Conhecimentos Comuns (Área Judiciária TRT2 2025) (Caderno Tipo 005). Reproduzida para fins de estudo.