Questão nº 10
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT2 2018 (nº 10)
Atenção: Considere o texto abaixo para responder às questões de números 1 a 8.
Meditação e foco no macarrão
"Sente os pés no chão", diz a instrutora, com a voz serena de quem há décadas deve sentir os pés no chão, "sente a respiração".
"Inspira, expira", ela diz, mas o narrador dentro da minha cabeça fala mais alto: "Eis então que no início do terceiro milênio, tendo chegado à Lua e à engenharia genética, os seres humanos se voltavam ávidos a técnicas milenares de relaxamento na esperança de encontrar alguma paz e algum sentido para suas vidas simultaneamente atribuladas e vazias".
Um lagarto, penso, jamais faria um curso de meditação. "Sente a pedra. A barriga na pedra. Relaxa a cauda. Agora sente o sol aquecendo as escamas. Esquece as moscas. Esquece as cobras rondando a toca. Inspira. Expira." Eu imagino que o lagarto sinta a pedra. A barriga na pedra. O prazer simples e ancestral de lagartear sob o sol.
Se o lagarto consegue esquecer as moscas ou a cobra rondando a toca, já não sei. A parte mais interna e mais antiga do nosso cérebro é igual à dos répteis. É dali que vem o medo, ferramenta evolutiva fundamental para trazer nossos genes triunfantes e nossos cérebros aflitos através dos milênios até aquela roda, no décimo segundo andar de um prédio na cidade de São Paulo.
Não há nada de místico na meditação. Pelo contrário. Meditar é aprender a estar aqui, agora. Eu acho que nunca estive aqui, agora. O ansioso está sempre em outro lugar. Sempre pré-ocupado. Às vezes acho que nasci meia hora atrasado e nunca recuperei esses trinta minutos. "Inspira. Expira".
Não é um problema só meu. A revista dominical do "New York Times" fez uma matéria de capa ano passado sobre o tema. Dizia que vivemos a era da ansiedade. Todas as redes sociais são latifúndios produzindo ansiedade. Mesmo o presente mais palpável, como um prato fumegante de macarrão, nós conseguimos digitalizar e transformar em ansiedade. Eu preciso postar a minha selfie dando a primeira garfada neste macarrão, depois nem vou conseguir comer o resto do macarrão, ou sentir o gosto do macarrão, porque estarei ocupado conferindo quantas pessoas estão comentando a minha foto comendo o macarrão que esfria, a minha frente.
"Inspira, expira." A voz da instrutora é tão calma e segura que me dá a certeza de que ela consegue comer o macarrão e me dá a esperança de que também eu, um dia, aprenderei a comer o macarrão. É só o que eu peço a cinco mil anos de tradição acumulada por monges e budas e maharishis e demais sábios barbudos ou imberbes do longínquo Oriente. "Inspira. Expira." Foco no macarrão.
(Adaptado de: PRATA, Antonio. Folha de S. Paulo. Disponível em: www.folha.uol.com.br)
Está redigido com objetividade e correção o que se encontra em:
- AO medo de ser excluido de eventos sociais é um dos muitos fatores que levam os usuários da rede a se virem na obrigação de estarem constantemente conectados, o que em grande parte dos casos gera comportamentos compulsivos.
- BA dependência à internet é tamanha que muitos indivíduos têm seu humor alterado quando chegam em um local que não é possível conectar-se. Paralelamente, as relações no meio não virtual tendem a se fragilizar.
- CEstudos recentes alertam quanto os impactos nocivos do uso desregrado das redes sociais. Jovens que passam mais de duas horas por dia nesses ambientes são mais sucetíveis a desenvolverem sintomas de ansiedade e depressão.
- DAs redes sociais têm adquirido importância crescente na sociedade moderna. Sua relevância estende-se da vida pessoal às mobilizações sociais. Seu mau uso, entretanto, pode desencadear um transtorno de ansiedade. (alternativa correta)
- EAlém do tempo perdido, passar muito tempo nas redes sociais prejudica a saúde mental. Isto porque quanto mais tempo gasto diante do celular ou do computador, mais tempo se quer ficar, o que as tornam tão viciantes.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
"Objetividade e correção" na língua portuguesa significam usar uma linguagem clara, precisa e gramaticalmente impecável, evitando ambiguidades, informalidades excessivas, erros de ortografia, pontuação, concordância, regência e crase.
(A) Incorreta: Há erro de acentuação em "excluido" (o correto é excluído). A construção "se virem na obrigação de estarem" é um pouco prolixa e menos objetiva do que "se veem obrigados a estar".
(B) Incorreta: Há erros de regência e ortografia. O correto seria "dependência da internet" (ou "à internet" se a regência for "dependência a", mas "de" é mais comum e formal). O verbo "chegar" pede a preposição "a" quando indica lugar: "chegam a um local". "Não é possível conectar-se" deveria ter o pronome antes do verbo devido ao "não" (próclise): "não é possível conectar-se". O termo "não virtual" deveria ser hifenizado: "não-virtual". (Armadilha da banca: Os erros são sutis, envolvendo regência verbal e nominal, além de hifenização, que são pontos comuns de dificuldade e exigem atenção redobrada à norma-padrão.)
(C) Incorreta: Há erros de regência e ortografia. O verbo "alertar" pede a preposição "para" ou "sobre" quando se refere ao objeto indireto: "alertam para os impactos" ou "alertam sobre os impactos". A grafia correta é "suscetíveis", não "sucetíveis".
(D) Correta: A frase está gramaticalmente correta em todos os aspectos (ortografia, concordância, regência, pontuação e clareza), apresentando uma linguagem objetiva e formal, alinhada à norma-padrão.
(E) Incorreta: Há erro de concordância verbal e uso de pronome demonstrativo. O correto seria "Isso porque" (retomando uma ideia anterior). A concordância do verbo "tornar" está incorreta: "o que as torna tão viciantes" (o "o que" funciona como sujeito singular).
Fonte: FCC TRT2 2018 Técnico Judiciário - Área Administrativa (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.