Questão nº 3
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT2 2018 (nº 3)
Atenção: Considere o texto abaixo para responder às questões de números 1 a 8.
Meditação e foco no macarrão
"Sente os pés no chão", diz a instrutora, com a voz serena de quem há décadas deve sentir os pés no chão, "sente a respiração".
"Inspira, expira", ela diz, mas o narrador dentro da minha cabeça fala mais alto: "Eis então que no início do terceiro milênio, tendo chegado à Lua e à engenharia genética, os seres humanos se voltavam ávidos a técnicas milenares de relaxamento na esperança de encontrar alguma paz e algum sentido para suas vidas simultaneamente atribuladas e vazias".
Um lagarto, penso, jamais faria um curso de meditação. "Sente a pedra. A barriga na pedra. Relaxa a cauda. Agora sente o sol aquecendo as escamas. Esquece as moscas. Esquece as cobras rondando a toca. Inspira. Expira." Eu imagino que o lagarto sinta a pedra. A barriga na pedra. O prazer simples e ancestral de lagartear sob o sol.
Se o lagarto consegue esquecer as moscas ou a cobra rondando a toca, já não sei. A parte mais interna e mais antiga do nosso cérebro é igual à dos répteis. É dali que vem o medo, ferramenta evolutiva fundamental para trazer nossos genes triunfantes e nossos cérebros aflitos através dos milênios até aquela roda, no décimo segundo andar de um prédio na cidade de São Paulo.
Não há nada de místico na meditação. Pelo contrário. Meditar é aprender a estar aqui, agora. Eu acho que nunca estive aqui, agora. O ansioso está sempre em outro lugar. Sempre pré-ocupado. Às vezes acho que nasci meia hora atrasado e nunca recuperei esses trinta minutos. "Inspira. Expira".
Não é um problema só meu. A revista dominical do "New York Times" fez uma matéria de capa ano passado sobre o tema. Dizia que vivemos a era da ansiedade. Todas as redes sociais são latifúndios produzindo ansiedade. Mesmo o presente mais palpável, como um prato fumegante de macarrão, nós conseguimos digitalizar e transformar em ansiedade. Eu preciso postar a minha selfie dando a primeira garfada neste macarrão, depois nem vou conseguir comer o resto do macarrão, ou sentir o gosto do macarrão, porque estarei ocupado conferindo quantas pessoas estão comentando a minha foto comendo o macarrão que esfria, a minha frente.
"Inspira, expira." A voz da instrutora é tão calma e segura que me dá a certeza de que ela consegue comer o macarrão e me dá a esperança de que também eu, um dia, aprenderei a comer o macarrão. É só o que eu peço a cinco mil anos de tradição acumulada por monges e budas e maharishis e demais sábios barbudos ou imberbes do longínquo Oriente. "Inspira. Expira." Foco no macarrão.
(Adaptado de: PRATA, Antonio. Folha de S. Paulo. Disponível em: www.folha.uol.com.br)
Considerando a argumentação estabelecida no texto, articulam-se a ideias opostas as seguintes palavras:
Este texto de apoio vale também pra questão nº 1, questão nº 2, questão nº 4, questão nº 5, questão nº 6, questão nº 7, questão nº 8.
- Apenso; imagino (3º parágrafo).
- Bansioso; atrasado (5º parágrafo).
- Cmacarrão; foto (6º parágrafo). (alternativa correta)
- Dpedra; sol (3º parágrafo).
- ERelaxa; lagartear (3º parágrafo).
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
Antônimos são palavras que expressam significados opostos. A questão busca palavras que, no contexto da argumentação do texto, representem ideias contrastantes ou opostas.
- (A) Incorreta: As palavras penso e imagino são sinônimas ou muito próximas em significado, ambas indicando um processo mental de conjectura ou reflexão, não ideias opostas.
- (B) Incorreta: Embora o autor relacione seu estado de ansioso com a sensação de estar atrasado, essas palavras não são antônimos diretos. Uma descreve um estado emocional e a outra uma condição temporal, não representando ideias opostas na argumentação central do texto.
- (C) Correta: No 6º parágrafo, o macarrão representa a experiência presente, palpável e real que deveria ser saboreada ("sentir o gosto do macarrão"). A foto (e a interação digital subsequente) representa a distração, a digitalização da experiência que impede o foco no presente e gera ansiedade ("ocupado conferindo quantas pessoas estão comentando a minha foto"). Assim, o macarrão simboliza a presença e a realidade da experiência, enquanto a foto simboliza a ausência e a distração digital, articulando ideias opostas na argumentação do autor.
- (D) Incorreta: Pedra e sol são elementos naturais que, no contexto do 3º parágrafo, são complementares na descrição da experiência do lagarto, não expressando ideias opostas.
- (E) Incorreta: A palavra Relaxa (imperativo do verbo relaxar) e lagartear (ação de se expor ao sol como um lagarto, implicando relaxamento) são semanticamente relacionadas e complementares, não opostas.
Fonte: FCC TRT2 2018 Técnico Judiciário - Área Administrativa (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.