Questão nº 9
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT2 2018 (nº 9)
Atenção: Considere o texto abaixo para responder às questões de números 1 a 8.
Meditação e foco no macarrão
"Sente os pés no chão", diz a instrutora, com a voz serena de quem há décadas deve sentir os pés no chão, "sente a respiração".
"Inspira, expira", ela diz, mas o narrador dentro da minha cabeça fala mais alto: "Eis então que no início do terceiro milênio, tendo chegado à Lua e à engenharia genética, os seres humanos se voltavam ávidos a técnicas milenares de relaxamento na esperança de encontrar alguma paz e algum sentido para suas vidas simultaneamente atribuladas e vazias".
Um lagarto, penso, jamais faria um curso de meditação. "Sente a pedra. A barriga na pedra. Relaxa a cauda. Agora sente o sol aquecendo as escamas. Esquece as moscas. Esquece as cobras rondando a toca. Inspira. Expira." Eu imagino que o lagarto sinta a pedra. A barriga na pedra. O prazer simples e ancestral de lagartear sob o sol.
Se o lagarto consegue esquecer as moscas ou a cobra rondando a toca, já não sei. A parte mais interna e mais antiga do nosso cérebro é igual à dos répteis. É dali que vem o medo, ferramenta evolutiva fundamental para trazer nossos genes triunfantes e nossos cérebros aflitos através dos milênios até aquela roda, no décimo segundo andar de um prédio na cidade de São Paulo.
Não há nada de místico na meditação. Pelo contrário. Meditar é aprender a estar aqui, agora. Eu acho que nunca estive aqui, agora. O ansioso está sempre em outro lugar. Sempre pré-ocupado. Às vezes acho que nasci meia hora atrasado e nunca recuperei esses trinta minutos. "Inspira. Expira".
Não é um problema só meu. A revista dominical do "New York Times" fez uma matéria de capa ano passado sobre o tema. Dizia que vivemos a era da ansiedade. Todas as redes sociais são latifúndios produzindo ansiedade. Mesmo o presente mais palpável, como um prato fumegante de macarrão, nós conseguimos digitalizar e transformar em ansiedade. Eu preciso postar a minha selfie dando a primeira garfada neste macarrão, depois nem vou conseguir comer o resto do macarrão, ou sentir o gosto do macarrão, porque estarei ocupado conferindo quantas pessoas estão comentando a minha foto comendo o macarrão que esfria, a minha frente.
"Inspira, expira." A voz da instrutora é tão calma e segura que me dá a certeza de que ela consegue comer o macarrão e me dá a esperança de que também eu, um dia, aprenderei a comer o macarrão. É só o que eu peço a cinco mil anos de tradição acumulada por monges e budas e maharishis e demais sábios barbudos ou imberbes do longínquo Oriente. "Inspira. Expira." Foco no macarrão.
(Adaptado de: PRATA, Antonio. Folha de S. Paulo. Disponível em: www.folha.uol.com.br)
Uma frase redigida com clareza e correção é:
- AO ansioso ocupa-se em elocubrar a respeito de fatos futuros, enquanto negligencia-se do tempo presente.
- BChegar à Lua e avançar na engenharia genética não mitigaram as inquietações que encerram a humanidade.
- COs trinta minutos que se perderam quando nasci, nunca foram recuperados – pelo menos é como sinto-me.
- DA revista dominical do "New York Times" publicou uma matéria interessante, cujo o tema versava a ansiedade.
- EReunidos em um prédio em São Paulo, alguns de nós procurávamos aprender um modo de vencer a ansiedade. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
Clareza e correção na língua portuguesa significam escrever de forma que a mensagem seja facilmente entendida e que todas as regras gramaticais sejam respeitadas. Isso evita ambiguidades e garante que o texto esteja de acordo com a norma-padrão.
(A) Incorreta: A regência do verbo "negligenciar-se" está incorreta; o correto seria "enquanto se negligencia o tempo presente" ou "enquanto negligencia o tempo presente", não "negligencia-se do tempo presente".
(B) Incorreta: O uso do verbo "encerrar" no contexto de "inquietações que encerram a humanidade" é pouco usual e compromete a clareza da frase, pois "encerrar" significa mais comumente "terminar" ou "conter", e não "afetar" ou "atingir" de forma abrangente.
(C) Incorreta: Há um erro de colocação pronominal; o pronome oblíquo átono "me" não pode iniciar oração ou ser colocado após vírgula sem fator de próclise, portanto, o correto seria "pelo menos é como me sinto".
(D) Incorreta: O pronome relativo cujo já indica posse e não admite artigo depois dele; o correto seria "cujo tema", e não "cujo o tema". Esta é uma armadilha comum que testa o conhecimento sobre o uso correto dos pronomes relativos.
(E) Correta: A frase está gramaticalmente correta em todos os aspectos, incluindo concordância verbal e nominal, regência, colocação pronominal e pontuação, além de apresentar clareza na comunicação da ideia.
Fonte: FCC TRT2 2018 Técnico Judiciário - Área Administrativa (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.