Questão nº 7
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT2 2018 (nº 7)
Atenção: Considere o texto abaixo para responder às questões de números 1 a 8.
Meditação e foco no macarrão
"Sente os pés no chão", diz a instrutora, com a voz serena de quem há décadas deve sentir os pés no chão, "sente a respiração".
"Inspira, expira", ela diz, mas o narrador dentro da minha cabeça fala mais alto: "Eis então que no início do terceiro milênio, tendo chegado à Lua e à engenharia genética, os seres humanos se voltavam ávidos a técnicas milenares de relaxamento na esperança de encontrar alguma paz e algum sentido para suas vidas simultaneamente atribuladas e vazias".
Um lagarto, penso, jamais faria um curso de meditação. "Sente a pedra. A barriga na pedra. Relaxa a cauda. Agora sente o sol aquecendo as escamas. Esquece as moscas. Esquece as cobras rondando a toca. Inspira. Expira." Eu imagino que o lagarto sinta a pedra. A barriga na pedra. O prazer simples e ancestral de lagartear sob o sol.
Se o lagarto consegue esquecer as moscas ou a cobra rondando a toca, já não sei. A parte mais interna e mais antiga do nosso cérebro é igual à dos répteis. É dali que vem o medo, ferramenta evolutiva fundamental para trazer nossos genes triunfantes e nossos cérebros aflitos através dos milênios até aquela roda, no décimo segundo andar de um prédio na cidade de São Paulo.
Não há nada de místico na meditação. Pelo contrário. Meditar é aprender a estar aqui, agora. Eu acho que nunca estive aqui, agora. O ansioso está sempre em outro lugar. Sempre pré-ocupado. Às vezes acho que nasci meia hora atrasado e nunca recuperei esses trinta minutos. "Inspira. Expira".
Não é um problema só meu. A revista dominical do "New York Times" fez uma matéria de capa ano passado sobre o tema. Dizia que vivemos a era da ansiedade. Todas as redes sociais são latifúndios produzindo ansiedade. Mesmo o presente mais palpável, como um prato fumegante de macarrão, nós conseguimos digitalizar e transformar em ansiedade. Eu preciso postar a minha selfie dando a primeira garfada neste macarrão, depois nem vou conseguir comer o resto do macarrão, ou sentir o gosto do macarrão, porque estarei ocupado conferindo quantas pessoas estão comentando a minha foto comendo o macarrão que esfria, a minha frente.
"Inspira, expira." A voz da instrutora é tão calma e segura que me dá a certeza de que ela consegue comer o macarrão e me dá a esperança de que também eu, um dia, aprenderei a comer o macarrão. É só o que eu peço a cinco mil anos de tradição acumulada por monges e budas e maharishis e demais sábios barbudos ou imberbes do longínquo Oriente. "Inspira. Expira." Foco no macarrão.
(Adaptado de: PRATA, Antonio. Folha de S. Paulo. Disponível em: www.folha.uol.com.br)
O sinal indicativo de crase pode ser acrescido, por ser facultativo, à expressão destacada em:
Este texto de apoio vale também pra questão nº 1, questão nº 2, questão nº 3, questão nº 4, questão nº 5, questão nº 6, questão nº 8.
- AMeditar é aprender a estar aqui, agora. (5º parágrafo)
- Bse voltavam ávidos a técnicas milenares de relaxamento... (2º parágrafo)
- CAgora sente o sol aquecendo as escamas. (3º parágrafo)
- Do macarrão que esfria, a minha frente. (6º parágrafo) (alternativa correta)
- EEsquece as moscas. (3º parágrafo)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
A crase é a fusão da preposição "a" com o artigo definido feminino "a" (ou "as"), ou com pronomes demonstrativos iniciados por "a" (aquela, aquilo). Ela é facultativa em três casos: antes de pronomes possessivos femininos (minha, sua, etc.), antes de nomes próprios femininos e após a preposição "até".
- (A) Incorreta: "aprender a estar" - O verbo "aprender" pede a preposição "a", mas "estar" é um verbo no infinitivo, e verbos no infinitivo nunca admitem artigo "a". Portanto, não há fusão, apenas a preposição "a". A crase é impossível.
- (B) Incorreta: "se voltavam ávidos a técnicas milenares" - O adjetivo "ávidos" exige a preposição "a" (ávidos a algo), e "técnicas" é um substantivo feminino plural que admite o artigo "as". Assim, a crase seria obrigatória ("ávidos às técnicas"), e não facultativa. A armadilha aqui é que a crase é necessária, mas não por ser facultativa.
- (C) Incorreta: "aquecendo as escamas" - O verbo "aquecer" é transitivo direto neste contexto, ou seja, não exige preposição "a". "as escamas" é o objeto direto, contendo apenas o artigo "as". A crase é impossível.
- (D) Correta: "o macarrão que esfria, a minha frente." - A expressão "à minha frente" contém a preposição "a" (exigida pela locução adverbial "à frente de") e o pronome possessivo feminino "minha". A crase antes de pronomes possessivos femininos é facultativa. Portanto, tanto "a minha frente" quanto "à minha frente" estão corretos.
- (E) Incorreta: "Esquece as moscas" - O verbo "esquecer", quando transitivo direto (esquecer algo), não exige preposição "a". "as moscas" é o objeto direto, contendo apenas o artigo "as". A crase é impossível.
Fonte: FCC TRT2 2018 Técnico Judiciário - Área Administrativa (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.