Questão nº 5
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT15 2024 (nº 5)
[Eternidade do guarda-chuva]
Ontem choveu demais e eu precisava ir a três pontos diferentes da cidade. Quando o moço do jornal veio apanhar a crônica que eu acabara de escrever, pedi-lhe que me comprasse um guarda-chuva que parecesse digno da classe média, e ele o fez com competência. Depois de cumprir meus afazeres voltei para casa, pendurei o guarda-chuva a um canto e me pus a contemplá-lo. Senti então uma certa simpatia por ele, meu velho rancor contra os guarda-chuvas cedeu lugar a um estranho carinho, e eu mesmo fiquei curioso para saber qual a origem desse carinho.
Pensando bem, ele talvez derive do fato de ser o guarda-chuva o objeto do mundo moderno mais infenso a mudanças. Sou apenas um quarentão, e praticamente nenhum objeto da minha infância existe mais em sua forma primitiva. De máquinas como telefone, automóvel etc., nem é bom falar. Mil pequenos objetos de uso mudaram de forma, de cor, de material; em alguns casos, é verdade, para melhor; mas mudaram.
O guarda-chuva tem resistido. Suas irmãs, as sombrinhas, já se entregaram aos piores desregramentos futuristas e tanto abusaram que até caíram de moda. Ele permaneceu austero, negro, com seu cabo e suas invariáveis varetas. De junco fino ou pinho vulgar, de algodão ou de seda animal, pobre ou rico, ele tem se mantido digno. Reparem que é um dos engenhos mais curiosos que o homem inventou; tem ao mesmo tempo algo de ridículo e de fúnebre, essa pequena barraca. Nada disso, entretanto, lhe tira o ar honrado. Entrou calmamente pela era atômica, e olha com ironia a arquitetura e os móveis chamados funcionais. Ele já era funcional muito antes de se usar esse adjetivo; e tanto que a fantasia, a inquietação e a ânsia de variedade do homem não conseguiram modificá-lo em coisa alguma.
Ali está ele, meio aberto, ainda molhado, choroso; descansa com uma espécie de humildade ou paciência humana; se tivesse liberdade de movimentos não duvido de que iria para cima do telhado quentar sol*, como fazem os urubus.
*quentar sol: forma popular para "esquentar ao sol"
(Adaptado de BRAGA, Rubem. 200 crônicas escolhidas. Rio de Janeiro: Record, 1978, p. 217-218)
É inteiramente regular a pontuação da frase:
- APouca gente se dispõe de fato, a cultivar por um guarda-chuva, uma relação tão respeitosa como essa.
- BHá, nos guarda-chuvas, uma variedade mínima de aspectos, que em nada afeta sua essência. (alternativa correta)
- CNão vejo num guarda-chuva, o mesmo encantamento, que lhe dedicou o cronista.
- DNão me surpreenderia, se o cronista mantivesse por outros objetos, essa mesma veneração.
- ENão apenas honradez mas também humildade, atribui o cronista, ao guarda-chuva que lhe compraram.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
A vírgula é usada para separar termos acessórios (como adjuntos adverbiais deslocados), orações intercaladas ou para indicar pausas sintáticas, mas nunca deve separar o sujeito do predicado, o verbo de seu complemento, ou o nome de seu adjunto adnominal/complemento nominal quando não há intercalação.
(A) Incorreta: A vírgula depois de "guarda-chuva" separa o verbo "cultivar" de seu objeto direto "uma relação", o que é irregular.
(B) Correta: As vírgulas isolam o adjunto adverbial de lugar "nos guarda-chuvas", que está intercalado. A vírgula antes do "que" introduz uma oração subordinada adjetiva explicativa, que adiciona uma informação sobre "uma variedade mínima de aspectos", sendo, portanto, regular.
(C) Incorreta: A vírgula depois de "guarda-chuva" separa o verbo "vejo" de seu objeto direto "o mesmo encantamento". Além disso, a vírgula antes de "que" é irregular, pois introduz uma oração adjetiva restritiva. Esta é a armadilha mais comum, pois o excesso de vírgulas pode parecer correto, mas viola regras fundamentais.
(D) Incorreta: A vírgula depois de "objetos" separa o verbo "mantivesse" de seu objeto direto "essa mesma veneração", o que é irregular.
(E) Incorreta: A vírgula depois de "humildade" separa o objeto direto composto do verbo "atribui". A vírgula depois de "cronista" separa o sujeito posposto do seu complemento verbal, o que é irregular.
Fonte: FCC TRT15 2024 Analista Judiciário - Área Judiciária - Especialidade Oficial de Justiça Avaliador Federal (Caderno Tipo 004). Reproduzida para fins de estudo.