Questão nº 4
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT15 2024 (nº 4)
[Eternidade do guarda-chuva]
Ontem choveu demais e eu precisava ir a três pontos diferentes da cidade. Quando o moço do jornal veio apanhar a crônica que eu acabara de escrever, pedi-lhe que me comprasse um guarda-chuva que parecesse digno da classe média, e ele o fez com competência. Depois de cumprir meus afazeres voltei para casa, pendurei o guarda-chuva a um canto e me pus a contemplá-lo. Senti então uma certa simpatia por ele, meu velho rancor contra os guarda-chuvas cedeu lugar a um estranho carinho, e eu mesmo fiquei curioso para saber qual a origem desse carinho.
Pensando bem, ele talvez derive do fato de ser o guarda-chuva o objeto do mundo moderno mais infenso a mudanças. Sou apenas um quarentão, e praticamente nenhum objeto da minha infância existe mais em sua forma primitiva. De máquinas como telefone, automóvel etc., nem é bom falar. Mil pequenos objetos de uso mudaram de forma, de cor, de material; em alguns casos, é verdade, para melhor; mas mudaram.
O guarda-chuva tem resistido. Suas irmãs, as sombrinhas, já se entregaram aos piores desregramentos futuristas e tanto abusaram que até caíram de moda. Ele permaneceu austero, negro, com seu cabo e suas invariáveis varetas. De junco fino ou pinho vulgar, de algodão ou de seda animal, pobre ou rico, ele tem se mantido digno. Reparem que é um dos engenhos mais curiosos que o homem inventou; tem ao mesmo tempo algo de ridículo e de fúnebre, essa pequena barraca. Nada disso, entretanto, lhe tira o ar honrado. Entrou calmamente pela era atômica, e olha com ironia a arquitetura e os móveis chamados funcionais. Ele já era funcional muito antes de se usar esse adjetivo; e tanto que a fantasia, a inquietação e a ânsia de variedade do homem não conseguiram modificá-lo em coisa alguma.
Ali está ele, meio aberto, ainda molhado, choroso; descansa com uma espécie de humildade ou paciência humana; se tivesse liberdade de movimentos não duvido de que iria para cima do telhado quentar sol*, como fazem os urubus.
*quentar sol: forma popular para "esquentar ao sol"
(Adaptado de BRAGA, Rubem. 200 crônicas escolhidas. Rio de Janeiro: Record, 1978, p. 217-218)
O autor surpreende na imagem do guarda-chuva alguma complexidade, quando admite que ele
- Acombina o aspecto algo risível com o fúnebre. (alternativa correta)
- Bconota a tragicidade de nossa era atômica.
- Clhe inspira permanentemente um insuperável e velho rancor.
- Dse mostra com a versatilidade das máquinas modernas.
- Ecumpre um destino análogo ao das sombrinhas futuristas.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
Para interpretar um texto, é fundamental identificar as características e sentimentos que o autor atribui a um objeto ou ideia, prestando atenção a detalhes que revelem complexidade ou contradições.
(A) Correta: O autor afirma explicitamente que o guarda-chuva "tem ao mesmo tempo algo de ridículo e de fúnebre", o que demonstra a complexidade de sua imagem ao combinar aspectos contrastantes (o risível e o sombrio).
(B) Incorreta: O texto diz que o guarda-chuva "Entrou calmamente pela era atômica, e olha com ironia", o que não denota tragicidade, mas sim resiliência e indiferença irônica.
(C) Incorreta: O autor relata que seu "velho rancor contra os guarda-chuvas cedeu lugar a um estranho carinho", indicando que o rancor não foi permanente, mas superado.
(D) Incorreta: O texto enfatiza que o guarda-chuva é "o objeto do mundo moderno mais infenso a mudanças", contrastando-o com a versatilidade e as transformações das máquinas modernas.
(E) Incorreta: O autor contrasta o guarda-chuva com as sombrinhas, que "já se entregaram aos piores desregramentos futuristas e tanto abusaram que até caíram de moda", enquanto o guarda-chuva "permaneceu austero", ou seja, seus destinos são opostos.
Fonte: FCC TRT15 2024 Analista Judiciário - Área Judiciária - Especialidade Oficial de Justiça Avaliador Federal (Caderno Tipo 004). Reproduzida para fins de estudo.