Questão nº 2
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT15 2024 (nº 2)
[Eternidade do guarda-chuva]
Ontem choveu demais e eu precisava ir a três pontos diferentes da cidade. Quando o moço do jornal veio apanhar a crônica que eu acabara de escrever, pedi-lhe que me comprasse um guarda-chuva que parecesse digno da classe média, e ele o fez com competência. Depois de cumprir meus afazeres voltei para casa, pendurei o guarda-chuva a um canto e me pus a contemplá-lo. Senti então uma certa simpatia por ele, meu velho rancor contra os guarda-chuvas cedeu lugar a um estranho carinho, e eu mesmo fiquei curioso para saber qual a origem desse carinho.
Pensando bem, ele talvez derive do fato de ser o guarda-chuva o objeto do mundo moderno mais infenso a mudanças. Sou apenas um quarentão, e praticamente nenhum objeto da minha infância existe mais em sua forma primitiva. De máquinas como telefone, automóvel etc., nem é bom falar. Mil pequenos objetos de uso mudaram de forma, de cor, de material; em alguns casos, é verdade, para melhor; mas mudaram.
O guarda-chuva tem resistido. Suas irmãs, as sombrinhas, já se entregaram aos piores desregramentos futuristas e tanto abusaram que até caíram de moda. Ele permaneceu austero, negro, com seu cabo e suas invariáveis varetas. De junco fino ou pinho vulgar, de algodão ou de seda animal, pobre ou rico, ele tem se mantido digno. Reparem que é um dos engenhos mais curiosos que o homem inventou; tem ao mesmo tempo algo de ridículo e de fúnebre, essa pequena barraca. Nada disso, entretanto, lhe tira o ar honrado. Entrou calmamente pela era atômica, e olha com ironia a arquitetura e os móveis chamados funcionais. Ele já era funcional muito antes de se usar esse adjetivo; e tanto que a fantasia, a inquietação e a ânsia de variedade do homem não conseguiram modificá-lo em coisa alguma.
Ali está ele, meio aberto, ainda molhado, choroso; descansa com uma espécie de humildade ou paciência humana; se tivesse liberdade de movimentos não duvido de que iria para cima do telhado quentar sol*, como fazem os urubus.
*quentar sol: forma popular para "esquentar ao sol"
(Adaptado de BRAGA, Rubem. 200 crônicas escolhidas. Rio de Janeiro: Record, 1978, p. 217-218)
Na relação do autor com o guarda-chuva comparece uma figura de linguagem conhecida como personificação, tal como se dá neste segmento:
- Aé um dos engenhos mais curiosos que o homem inventou (3º parágrafo)
- Bdescansa com uma espécie de humildade (4º parágrafo) (alternativa correta)
- Cpedi-lhe que me comprasse um guarda-chuva (1º parágrafo)
- Dpendurei o guarda-chuva a um canto e me pus a contemplá-lo (1º parágrafo)
- Efiquei curioso para saber qual a origem desse carinho (1º parágrafo)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
Personificação é uma figura de linguagem que consiste em atribuir características, sentimentos ou ações humanas a seres inanimados, animais ou ideias abstratas. É como dar vida e personalidade a algo que não é humano.
- (A) Incorreta: Esta frase descreve o guarda-chuva como uma invenção humana ("engenho") e não atribui a ele nenhuma característica ou ação tipicamente humana.
- (B) Correta: A frase atribui ao guarda-chuva a capacidade de "descansar" (ação que remete a seres vivos) e, mais especificamente, a qualidade humana de "humildade", o que configura claramente a personificação.
- (C) Incorreta: Esta é uma ação do narrador (pedir para comprar) e não atribui nenhuma característica humana ao guarda-chuva.
- (D) Incorreta: Nesta frase, o narrador realiza ações ("pendurei", "contemplá-lo") em relação ao guarda-chuva. O guarda-chuva é o objeto das ações, não o sujeito que as executa ou que possui qualidades humanas. A armadilha aqui é que o narrador está interagindo e observando o objeto, o que pode levar a pensar em uma relação mais profunda, mas a personificação exige que a qualidade humana seja atribuída ao objeto.
- (E) Incorreta: Esta frase expressa um sentimento (curiosidade, carinho) do narrador, e não uma característica ou ação atribuída ao guarda-chuva.
Fonte: FCC TRT15 2024 Analista Judiciário - Área Judiciária - Especialidade Oficial de Justiça Avaliador Federal (Caderno Tipo 004). Reproduzida para fins de estudo.