Questão nº 13
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT-11 2017 (nº 13)
Freud uma vez recebeu carta de um conhecido pedindo conselhos diante de uma escolha importante da vida. A resposta é surpreendente: para as decisões pouco importantes, disse ele, vale a pena pensar bem. Quanto às grandes escolhas da vida, você terá menos chance de errar se escolher por impulso.
A sugestão parece imprudente, mas Freud sabia que as razões que mais pesam nas grandes escolhas são inconscientes, e o impulso obedece a essas razões. Claro que Freud não se referia às vontades impulsivas proibidas. Falava das decisões tomadas de “cabeça fria”, mas que determinam o rumo de nossas vidas. No caso das escolhas profissionais, as motivações inconscientes são decisivas. Elas determinam não só a escolha mais “acertada”, do ponto de vista da compatibilidade com a profissão, como são também responsáveis por aquilo que chamamos de talento. Isso se decide na infância, por mecanismos que chamamos de identificações. Toda criança leva na bagagem alguns traços da personalidade dos pais. Parece um processo de imitação, mas não é: os caminhos das identificações acompanham muito mais os desejos não realizados dos pais do que aqueles que eles seguiram na vida.
Junto com as identificações formam-se os ideais. A escolha profissional tem muito a ver com o campo de ideais que a pessoa valoriza. Dificilmente alguém consegue se entregar profissionalmente a uma prática que não represente os valores em que ela acredita.
Tudo isso está relacionado, é claro, com a almejada satisfação na vida profissional. Mas não vamos nos iludir. Satisfação no trabalho não significa necessariamente prazer em trabalhar. Grande parte das pessoas não trabalharia se não fosse necessário. O trabalho não é fonte de prazer, é fonte de sentido. Ele nos ajuda a dar sentido à vida. Só que o sentido da vida profissional não vem pronto: ele é o efeito, e não a premissa, dos anos de prática de uma profissão. Na contemporaneidade, em que se acredita em prazeres instantâneos, resultados imediatos e felicidade instantânea, é bom lembrar que a construção de sentido requer tempo e persistência. Por outro lado, quando uma escolha não faz sentido o sujeito percebe rapidamente.
(Adaptado de KEHL, Maria Rita. Disponível em: rae.fgv.br /sites/rae.fgv.br/files/artigos)
Falava das decisões tomadas de “cabeça fria”... (2º parágrafo)
O verbo que, no contexto, possui o mesmo tipo de complemento do grifado acima está em:
- ASatisfação no trabalho não significa necessariamente prazer... (4º parágrafo)
- BA sugestão parece imprudente... (2º parágrafo)
- C... quando uma escolha não faz sentido... (4º parágrafo)
- D... as razões que mais pesam nas grandes escolhas... (2º parágrafo) (alternativa correta)
- E... a construção de sentido requer tempo e persistência. (4º parágrafo)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
Regência verbal é a relação que um verbo estabelece com seus complementos. Um verbo pode ser transitivo direto (pede complemento sem preposição, chamado objeto direto), transitivo indireto (pede complemento com preposição, chamado objeto indireto), transitivo direto e indireto (pede os dois tipos de complemento) ou intransitivo (não pede complemento).
O verbo grifado na frase "Falava das decisões tomadas de “cabeça fria”..." é "falava". Ele exige a preposição "de" ("falava de algo"), portanto, é um Verbo Transitivo Indireto (VTI) e seu complemento ("das decisões") é um Objeto Indireto. Buscamos, então, um verbo que também seja VTI e tenha um Objeto Indireto como complemento.
- (A) Incorreta: O verbo "significa" é um Verbo Transitivo Direto (VTD), pois seu complemento "prazer" é um Objeto Direto (sem preposição). Isso o diferencia do verbo "falava", que é VTI e pede um Objeto Indireto. A armadilha aqui é não distinguir entre Objeto Direto e Objeto Indireto, focando apenas no fato de haver um complemento.
- (B) Incorreta: O verbo "parece" é um Verbo de Ligação (VL), pois liga o sujeito ("A sugestão") a uma característica ("imprudente", que é um predicativo do sujeito), e não a um complemento verbal.
- (C) Incorreta: O verbo "faz" é um Verbo Transitivo Direto (VTD), pois seu complemento "sentido" é um Objeto Direto (sem preposição).
- (D) Correta: O verbo "pesam" é um Verbo Transitivo Indireto (VTI), pois exige um complemento preposicionado: "nas grandes escolhas" ("em" + "as"). Assim como "falava", que é VTI e exige "das decisões" ("de" + "as"), ambos os verbos possuem um Objeto Indireto como complemento. Embora as preposições sejam diferentes ("de" e "em"), o tipo de complemento (Objeto Indireto) é o mesmo.
- (E) Incorreta: O verbo "requer" é um Verbo Transitivo Direto (VTD), pois seu complemento "tempo e persistência" é um Objeto Direto (sem preposição).
Fonte: FCC TRT-11 2017 Conhecimentos Comuns (Técnicos TRT11) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.