Questão nº 12
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT-11 2017 (nº 12)
Freud uma vez recebeu carta de um conhecido pedindo conselhos diante de uma escolha importante da vida. A resposta é surpreendente: para as decisões pouco importantes, disse ele, vale a pena pensar bem. Quanto às grandes escolhas da vida, você terá menos chance de errar se escolher por impulso.
A sugestão parece imprudente, mas Freud sabia que as razões que mais pesam nas grandes escolhas são inconscientes, e o impulso obedece a essas razões. Claro que Freud não se referia às vontades impulsivas proibidas. Falava das decisões tomadas de “cabeça fria”, mas que determinam o rumo de nossas vidas. No caso das escolhas profissionais, as motivações inconscientes são decisivas. Elas determinam não só a escolha mais “acertada”, do ponto de vista da compatibilidade com a profissão, como são também responsáveis por aquilo que chamamos de talento. Isso se decide na infância, por mecanismos que chamamos de identificações. Toda criança leva na bagagem alguns traços da personalidade dos pais. Parece um processo de imitação, mas não é: os caminhos das identificações acompanham muito mais os desejos não realizados dos pais do que aqueles que eles seguiram na vida.
Junto com as identificações formam-se os ideais. A escolha profissional tem muito a ver com o campo de ideais que a pessoa valoriza. Dificilmente alguém consegue se entregar profissionalmente a uma prática que não represente os valores em que ela acredita.
Tudo isso está relacionado, é claro, com a almejada satisfação na vida profissional. Mas não vamos nos iludir. Satisfação no trabalho não significa necessariamente prazer em trabalhar. Grande parte das pessoas não trabalharia se não fosse necessário. O trabalho não é fonte de prazer, é fonte de sentido. Ele nos ajuda a dar sentido à vida. Só que o sentido da vida profissional não vem pronto: ele é o efeito, e não a premissa, dos anos de prática de uma profissão. Na contemporaneidade, em que se acredita em prazeres instantâneos, resultados imediatos e felicidade instantânea, é bom lembrar que a construção de sentido requer tempo e persistência. Por outro lado, quando uma escolha não faz sentido o sujeito percebe rapidamente.
(Adaptado de KEHL, Maria Rita. Disponível em: rae.fgv.br /sites/rae.fgv.br/files/artigos)
Só que o sentido da vida profissional não vem pronto... (4º parágrafo)
Considerado o contexto e fazendo-se as devidas alterações na pontuação da frase acima, o segmento sublinhado pode ser substituído por:
- APorém (alternativa correta)
- BEmbora
- CPorquanto
- DJá que
- EMesmo que
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
Conectivos são palavras ou expressões que ligam partes de um texto, estabelecendo entre elas relações de sentido, como adição, oposição, causa, conclusão, etc. O valor semântico de um conectivo é o tipo de relação que ele estabelece.
- (A) Correta: "Porém" é um conectivo adversativo, que introduz uma ideia de oposição, contraste ou ressalva. "Só que" funciona como uma conjunção adversativa informal, equivalente a "mas" ou "porém", indicando uma restrição ou um contraponto à ideia anterior ("Satisfação no trabalho não significa necessariamente prazer em trabalhar").
- (B) Incorreta: "Embora" é um conectivo concessivo, que expressa uma ideia contrária à principal, mas que não impede sua realização. A relação aqui não é de concessão, mas de ressalva ou oposição.
- (C) Incorreta: "Porquanto" é um conectivo explicativo ou causal, significando "porque" ou "pois". A frase não estabelece uma relação de causa entre as duas ideias.
- (D) Incorreta: "Já que" é um conectivo causal, indicando a razão ou o motivo de algo. Não há uma relação de causa e efeito aqui.
- (E) Incorreta: "Mesmo que" é um conectivo concessivo, similar a "embora", mas com um tom de hipótese. A relação estabelecida não é de concessão hipotética.
Fonte: FCC TRT-11 2017 Conhecimentos Comuns (Técnicos TRT11) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.