Questão nº 10
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT-1 2025 (nº 10)
O individualismo e as instituições
Quando as instituições são frágeis e não funcionam, podem prevalecer as amarras da prepotência e do oportunismo violento. Na falta de normas legais que funcionem, na falta de uma representação atuante e legítima do Estado na vida social, a condição da "terra sem lei" tende à barbárie.
Exemplo disso forneceu o cinema norte-americano quando, em meados do século passado, inundou o mundo e a imaginação popular com filmes do gênero "western", supostos documentários da conquista do oeste. Uma situação padrão era representada nesses filmes: na pequena e remota cidade recém-formada, o poder local era manipulado por malfeitores poderosos, que submetiam aos seus interesses o xerife e o juiz. A "lei" servia assim de fachada para o império da autocracia e do crime, e a impunidade ameaçava ser eterna.
Mas eis que chegava o "mocinho": um homem vindo não se sabe de onde, solitário, lacônico, hábil no manejo das armas, intrépido, capaz de enfrentar e derrotar sozinho os poderosos locais – o que fazia com bravura e frieza, até deixar a cidade pacificada e sumir para sempre no horizonte, sob o olhar dos cidadãos agradecidos.
A "mensagem" desses filmes? Haveria, dentro de indivíduos especiais, um impulso natural para a justiça e a virtude, capaz de mudar a ordem das coisas. As virtudes inatas dessa liderança singular refundariam as instituições suprimidas. A figura de um herói solitário estaria na base da legitimação da ordem pública, quando esta fosse comprometida. Não deixa de ser uma forma de atribuir a uma liderança pessoal a missão de promover as instituições que tenham por escopo o bem público. Dito de outro modo: a moralidade desejável das instituições sociais já estaria presente, em germe, no indivíduo essencialmente virtuoso, capaz de reconduzir uma comunidade a um patamar da civilização.
(Bruno Rosa de Alcântara, a editar)
A lei servia assim de fachada, e a impunidade ameaçava ser eterna.
Reescrevendo-se com coerência o período acima, de modo a iniciá-lo por A impunidade ameaçava ser eterna, o enunciado complementar deverá ser
- Aenquanto a lei servia de fachada. (alternativa correta)
- Bde modo a servir a lei como fachada.
- Cconquanto a lei servisse como fachada.
- Dpara a lei vir a servir de fachada.
- Eainda que a lei servisse de fachada.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
Ao reescrever uma frase, é crucial manter a coerência e o sentido original, escolhendo conectivos (palavras que ligam orações) que expressem a mesma relação lógica entre as ideias. O objetivo é que a nova estrutura transmita a mesma mensagem da frase original, sem alterar as relações de tempo, causa, consequência, oposição, etc.
- (A) Correta: A conjunção "enquanto" estabelece uma relação de simultaneidade ou de tempo, indicando que as duas ações ("a impunidade ameaçava ser eterna" e "a lei servia de fachada") ocorriam ao mesmo tempo, ou que uma era o pano de fundo para a outra. Isso mantém o sentido original da frase, onde o "e" conectava dois fatos que coexistiam e se reforçavam mutuamente (a fachada da lei permitia a impunidade).
- (B) Incorreta: "de modo a" expressa finalidade ou consequência. A impunidade não ameaçava ser eterna com o objetivo de a lei servir de fachada, nem a lei servir de fachada era uma consequência da ameaça de impunidade. Isso altera o sentido original.
- (C) Incorreta: "conquanto" é uma conjunção concessiva, significando "embora", "ainda que". Ela introduziria uma ideia de oposição ou contraste ("a impunidade ameaçava ser eterna apesar de a lei servir de fachada"). Embora haja um contraste implícito na situação (a lei deveria impedir a impunidade, mas é uma fachada), a conjunção "e" no original não expressa essa concessão de forma tão explícita, mas sim uma coexistência ou adição de fatos. A armadilha aqui é confundir a situação de contraste (lei vs. impunidade) com a relação gramatical expressa pelo "e", que é de simultaneidade ou adição, não de concessão forte.
- (D) Incorreta: "para" também indica finalidade. A ameaça de impunidade não tinha como propósito que a lei servisse de fachada. Isso muda o sentido da frase.
- (E) Incorreta: "ainda que" é outra conjunção concessiva, com o mesmo sentido de "conquanto". Assim como na alternativa C, ela introduz uma ideia de oposição que não é a principal relação expressa pelo "e" na frase original.
Fonte: FCC TRT-1 2025 Analista Judiciário - Área Apoio Especializado - Especialidade Tecnologia da Informação (Caderno Tipo 004). Reproduzida para fins de estudo.