Questão nº 9
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRF3 2024 (nº 9)
Valor social da memória
Não há evocação, não há memória sem uma inteligência do presente, um homem não sabe o que ele é se não for capaz de sair das determinações atuais. Aturada reflexão pode preceder e acompanhar a evocação. Uma lembrança é um diamante bruto que precisa ser lapidado pelo espírito: sem o trabalho da reflexão e da localização, seria uma imagem fugidia. O sentimento também precisa acompanhá-la, para que ela não seja uma repetição do estado antigo, mas uma reaparição.
Se existe uma memória voltada para a ação, com sua prática de hábitos assimilados, e uma outra memória que simplesmente revive o passado, parece ser esta a dos velhos, já libertos das atividades profissionais e familiares. Mas o ancião não sonha quando rememora: desempenha uma função para a qual está maduro, a alta função de unir o começo ao fim, de divisar os limites de uma história inteira. Um mundo social que possui uma riqueza e uma diversidade que não conhecemos pode chegar-nos pela memória dos velhos. Momentos desse mundo perdido podem ser compreendidos por quem não os viveu. A conversa evocativa de um velho é sempre uma experiência profunda: para quem sabe ouvi-la, cria um nexo entre o passado e o presente, é instigante e inspiradora.
Considerando-se o contexto, deve-se entender que a expressão
- Adivisar os limites de uma história (2º parágrafo) aponta para a relevância social da memória dos velhos. (alternativa correta)
- Bpara quem sabe ouvi-la (2º parágrafo) personaliza um receptor de atenção descurada.
- Cinteligência do presente (1º parágrafo) refere-se à racionalidade de quem se aliena do que já passou.
- Ddiamante bruto (1º parágrafo) é utilizada para acentuar o desprestígio de que sofre a memória dos velhos.
- Eprática de hábitos assimilados (2º parágrafo) acentua a capacidade máxima de criação que tem a memória.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
O texto aborda o valor social da memória, especialmente a dos idosos, mostrando como ela é essencial para a compreensão do presente e para a conexão entre diferentes gerações e épocas.
(A) Correta: A expressão "divisar os limites de uma história inteira" é atribuída ao ancião que, por sua maturidade e experiência, consegue unir o começo ao fim de uma trajetória, oferecendo uma perspectiva completa que é valiosa para a sociedade, conforme o texto indica ao afirmar que "Um mundo social que possui uma riqueza e uma diversidade que não conhecemos pode chegar-nos pela memória dos velhos."
(B) Incorreta: A expressão "para quem sabe ouvi-la" indica que a escuta atenta e compreensiva é necessária para aproveitar a profundidade da memória do velho, e não que o receptor é desatento ou descuidado. A armadilha aqui é confundir a condição para uma boa escuta ("saber ouvir") com a descrição de um ouvinte negligente.
(C) Incorreta: A "inteligência do presente" é apresentada como condição para a memória e o autoconhecimento ("um homem não sabe o que ele é se não for capaz de sair das determinações atuais"), e não como uma forma de se alienar do passado. Pelo contrário, ela permite a evocação e a reflexão sobre o que já passou.
(D) Incorreta: A metáfora "diamante bruto" é usada para descrever a lembrança como algo valioso que precisa de trabalho (reflexão e localização) para revelar seu brilho e significado, e não para indicar desprestígio da memória.
(E) Incorreta: A "prática de hábitos assimilados" é mencionada como um tipo de memória voltada para a ação e a rotina, contrastando com a memória que revive o passado, e não como a capacidade máxima de criação da memória.
Fonte: FCC TRF3 2024 Analista Judiciário - Área Judiciária (Caderno Tipo 004). Reproduzida para fins de estudo.