Questão nº 8
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRF3 2024 (nº 8)
Valor social da memória
Não há evocação, não há memória sem uma inteligência do presente, um homem não sabe o que ele é se não for capaz de sair das determinações atuais. Aturada reflexão pode preceder e acompanhar a evocação. Uma lembrança é um diamante bruto que precisa ser lapidado pelo espírito: sem o trabalho da reflexão e da localização, seria uma imagem fugidia. O sentimento também precisa acompanhá-la, para que ela não seja uma repetição do estado antigo, mas uma reaparição.
Se existe uma memória voltada para a ação, com sua prática de hábitos assimilados, e uma outra memória que simplesmente revive o passado, parece ser esta a dos velhos, já libertos das atividades profissionais e familiares. Mas o ancião não sonha quando rememora: desempenha uma função para a qual está maduro, a alta função de unir o começo ao fim, de divisar os limites de uma história inteira. Um mundo social que possui uma riqueza e uma diversidade que não conhecemos pode chegar-nos pela memória dos velhos. Momentos desse mundo perdido podem ser compreendidos por quem não os viveu. A conversa evocativa de um velho é sempre uma experiência profunda: para quem sabe ouvi-la, cria um nexo entre o passado e o presente, é instigante e inspiradora.
O valor da memória dos velhos está, sobretudo,
- Ano árduo trabalho das fantasias que descrevem a totalidade de uma vida.
- Bna capacidade que têm os velhos de registrar detalhes avulsos de uma história perdida.
- Cna capacidade que têm de articular experiências já vividas às questões abertas no presente. (alternativa correta)
- Dna repercussão subjetiva que o passado adquire quando fielmente reconstituído.
- Eno estímulo das poderosas imagens passadas que relativizam a importância do presente.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
O valor social da memória, especialmente a dos mais velhos, reside na sua capacidade de conectar o passado ao presente, oferecendo sabedoria e compreensão para as questões atuais. Não é apenas reviver, mas interpretar e aplicar as experiências vividas.
(A) Incorreta: O texto fala em "reflexão" e "localização", não em "fantasias". A memória dos velhos é apresentada como uma função madura e profunda, baseada na experiência, e não em divagações fantasiosas.
(B) Incorreta: A memória não é apenas um registro de "detalhes avulsos". O texto enfatiza que ela "une o começo ao fim" e "cria um nexo entre o passado e o presente", ou seja, é uma articulação significativa, não uma mera coleção de fragmentos.
(C) Correta: O texto afirma que "não há memória sem uma inteligência do presente", que a lembrança precisa ser "lapidada pelo espírito" e que a conversa do velho "cria um nexo entre o passado e o presente, é instigante e inspiradora". Isso demonstra a capacidade de articular o vivido com o que se vive agora, oferecendo novas perspectivas.
(D) Incorreta: Embora a memória envolva o passado, o texto destaca que ela não é uma "repetição do estado antigo", mas uma "reaparição" que exige "reflexão e localização". Não é apenas uma reconstituição fiel e subjetiva, mas um trabalho de conexão que tem valor social e objetivo para quem ouve. Armadilha: A ideia de "fielmente reconstituído" pode parecer positiva, mas o texto vai além, indicando que a memória precisa ser trabalhada e conectada ao presente para ter valor, não apenas revivida subjetivamente.
(E) Incorreta: O texto enfatiza a criação de um "nexo entre o passado e o presente", e não a relativização da importância do presente. A memória dos velhos serve para enriquecer a compreensão do presente, tornando-o mais profundo e inteligível, e não para diminuir sua relevância.
Fonte: FCC TRF3 2024 Analista Judiciário - Área Judiciária (Caderno Tipo 004). Reproduzida para fins de estudo.