Questão nº 5
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRF3 2024 (nº 5)
Leis dos homens e leis da Natureza
Enquanto as leis dos homens buscam ordenar o comportamento dos indivíduos e da sociedade como um todo, de modo a tornar a vida comunal mais segura, as leis da Natureza são deduzidas de observações de toda uma variedade de fenômenos. Da mesma forma, enquanto as leis dos homens são baseadas em valores morais que variam de cultura para cultura e conforme o decorrer do tempo, as leis da Natureza buscam uma universalidade, tentando descrever comportamentos concretos - e verificáveis - que ocorrem no espaço e no tempo.
Com isso, se para um grupo certos rituais são aceitáveis, enquanto para outro os mesmos rituais são considerados bárbaros, estrelas em todo o cosmos vêm fundindo hidrogênio em hélio seguindo as mesmas regras desde o seu aparecimento, por volta de 200 milhões de anos após o Big Bang. Se em alguns países a pena de morte é um ato imoral, enquanto em outros é instituída com um zelo quase que fanático, moléculas em trilhões de planetas e luas nesta e em outras galáxias combinam-se e recombinam-se em reações químicas que seguem as mesmas leis de conservação, de atração e repulsão entre os reagentes.
As variações nas leis dos homens mostram que pouco sabemos sobre nós mesmos, e tampouco conseguimos concordar sobre quais são os valores morais universais, ou mesmo se esses existem. Por outro lado, a precisão das leis da Natureza, sua universalidade, vem inspirando muitos pensadores a usá-las como base para todas as leis, incluindo as leis dos homens. Basta lembrar-se da busca de leis sociais, fundamentadas rigidamente na racionalidade que caracterizou o Iluminismo. Essa busca não começou aí, existindo já bem antes do século XVIII. Consideremos, por exemplo, Platão e suas Formas Ideais: há no pensamento desse filósofo da Antiguidade, um senso de veneração com o poder da matemática, e ainda mais com o poder da mente humana, por ter concebido o que pareciam ser verdades eternas a partir da observação do comportamento da Natureza.
É plenamente regular o emprego do elemento sublinhado na frase:
- AMuitos fiéis consideram bárbaros os mesmos ritos de que outros fiéis consideram sagrados.
- BAs leis humanas buscam o equilíbrio comunal à que aspiram as sociedades mais justas.
- CAs leis da natureza constituem um repertório de fenômenos aonde sua regularidade é incontestável.
- DA veneração com cuja Platão considerava o poder da matemática levou-o às formas ideais.
- EÉ admirável o rigoroso zelo a que se obriga aquele cientista no acompanhamento de sua experiência. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
Pronomes relativos são palavras que ligam duas orações, retomando um termo já mencionado (antecedente). A regência é a exigência de uma preposição por um verbo ou nome, e essa preposição deve acompanhar o pronome relativo quando ele representa o termo regido.
- (A) Incorreta: O verbo "considerar" no sentido de "achar" é transitivo direto ("considerar algo sagrado"), não exigindo a preposição "de". O correto seria "os mesmos ritos que outros fiéis consideram sagrados".
- (B) Incorreta: O verbo "aspirar" no sentido de "desejar" rege a preposição "a" ("aspirar a algo"). No entanto, a crase antes do pronome relativo "que" é indevida, pois "que" não é um substantivo feminino que admita artigo. A armadilha da banca está no uso incorreto da crase; o correto seria "o equilíbrio comunal a que aspiram".
- (C) Incorreta: "Aonde" indica lugar e movimento. Para referência a um lugar estático ou para retomar "fenômenos" de forma mais abstrata, usa-se "onde" ou "em que". Além disso, a estrutura "aonde sua regularidade" é inadequada; o correto seria, por exemplo, "fenômenos cuja regularidade é incontestável".
- (D) Incorreta: O pronome relativo "cuja" indica posse e concorda com o substantivo que o segue. "Com cuja Platão" é uma construção incorreta, pois "Platão" não é possuído pela "veneração". O verbo "considerar" exige a preposição "com" ("considerar algo com veneração"), então o correto seria "A veneração com que Platão considerava...".
- (E) Correta: O verbo "obrigar-se" é transitivo indireto e rege a preposição "a" ("obrigar-se a algo"). O pronome relativo "que" retoma "o rigoroso zelo", e a preposição "a" está corretamente posicionada antes dele, atendendo à regência verbal.
Fonte: FCC TRF3 2024 Analista Judiciário - Área Judiciária (Caderno Tipo 004). Reproduzida para fins de estudo.