Questão nº 5
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRE-SP 2017 (nº 5)
Discussão – o que é isso?
A palavra discussão tem sentido bastante controverso: tanto pode indicar a hostilidade de um confronto insanável (“a discussão entre vizinhos acabou na delegacia”) como a operação necessária para se esclarecer um assunto ou chegar a um acordo (“discutiram, discutiram e acabaram concordando”). Mas o que toda discussão supõe, sempre, é a presença de um outro diante de nós, para quem somos o outro. A dificuldade geral está nesse reconhecimento a um tempo simples e difícil: o outro existe, e pode estar certo, sua posição pode ser mais justa do que a minha.
Entre dois antagonistas há as palavras e, com elas, os argumentos. Uma discussão proveitosa deverá ocorrer entre os argumentos, não entre as pessoas dos contendores. Se eu trago para uma discussão meu juízo já estabelecido sobre o caráter, a índole, a personalidade do meu interlocutor, a discussão apenas servirá para a exposição desses valores já incorporados em mim: quero destruir a pessoa, não quero avaliar seu pensamento. Nesses casos, a discussão é inútil, porque já desistiu de qualquer racionalização.
As formas de discussão têm muito a ver, não há dúvida, com a cultura de um povo. Numa sociedade em que as emoções mais fortes têm livre curso, a discussão pode adotar com naturalidade uma veemência que em sociedades mais “frias” não teria lugar. Estão na cultura de cada povo os ingredientes básicos que temperam uma discussão. Seja como for, sem o compromisso com o exame atento das razões do outro, já não haverá o que discutir: estaremos simplesmente fincando pé na necessidade de proclamar a verdade absoluta, que seria a nossa. Em casos assim, falar ao outro é o mesmo que falar sozinho, diante de um espelho complacente, que refletirá sempre a arrogância da nossa vaidade.
(COSTA, Teobaldo, inédito)
As formas verbais estão adequadamente empregadas e há presença da voz passiva em:
- AOs argumentos dos contendores, numa discussão, só serão aceitos caso se venha a considerá-los com isenção. (alternativa correta)
- BFossem sempre vencedores os argumentos de quem mais paixão demonstram, a irracionalidade acabará por imperar.
- CSe não fizéssemos questão de demonstrar nossa arrogância, mais simplesmente poderá o outro conciliar-se conosco.
- DSão de se esperar que os melhores argumentos acabem por sobrepujar os mais fracos, para que a justiça acabe imperando.
- EQuando for o caso de se fazerem confrontar argumentos inteiramente contrários, melhor seria se houvesse a ação de um bom mediador.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
A voz passiva ocorre quando o sujeito da frase sofre a ação expressa pelo verbo, em vez de praticá-la. Ela pode ser analítica (formada por um verbo auxiliar, geralmente "ser", mais o particípio passado do verbo principal) ou sintética/pronominal (formada por um verbo transitivo direto ou transitivo direto e indireto na 3ª pessoa, seguido do pronome "se", que atua como partícula apassivadora).
- (A) Correta: A forma verbal "serão aceitos" é uma voz passiva analítica ("ser" + particípio passado), onde "Os argumentos" são o sujeito paciente que sofre a ação de "aceitar". A segunda parte, "se venha a considerá-los", contém o "se" como índice de indeterminação do sujeito, pois o objeto direto ("os") está explícito, mas a presença da voz passiva analítica já torna a alternativa correta.
- (B) Incorreta: Todas as formas verbais ("Fossem", "demonstram", "acabará por imperar") estão na voz ativa ou são verbos de ligação, e o sujeito pratica a ação.
- (C) Incorreta: As formas verbais ("fizéssemos", "demonstrar", "poderá o outro conciliar-se") estão na voz ativa. O "se" em "conciliar-se" faz parte de um verbo pronominal (reflexivo ou recíproco), não indicando voz passiva.
- (D) Incorreta: A expressão "São de se esperar" utiliza o "se" que, embora possa ser interpretado como partícula apassivadora em alguns contextos gramaticais ("Isso é esperado"), em questões de prova, pode ser considerado um índice de indeterminação do sujeito em uma construção impessoal ("alguém espera isso"), focando no agente indeterminado e não na ação sofrida pelo sujeito. Essa ambiguidade é a armadilha da banca.
- (E) Incorreta: Na construção "de se fazerem confrontar argumentos", o "se" pode ser interpretado como índice de indeterminação do sujeito em uma construção causativa ("alguém faz com que os argumentos sejam confrontados"), e não como partícula apassivadora, apesar da concordância verbal. A complexidade da estrutura e a ambiguidade do "se" são a armadilha.
Fonte: FCC TRE-SP 2017 Analista Judiciário - Área Administrativa - Especialidade Contabilidade (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.