Questão nº 1
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRE-SP 2017 (nº 1)
Discussão – o que é isso?
A palavra discussão tem sentido bastante controverso: tanto pode indicar a hostilidade de um confronto insanável (“a discussão entre vizinhos acabou na delegacia”) como a operação necessária para se esclarecer um assunto ou chegar a um acordo (“discutiram, discutiram e acabaram concordando”). Mas o que toda discussão supõe, sempre, é a presença de um outro diante de nós, para quem somos o outro. A dificuldade geral está nesse reconhecimento a um tempo simples e difícil: o outro existe, e pode estar certo, sua posição pode ser mais justa do que a minha.
Entre dois antagonistas há as palavras e, com elas, os argumentos. Uma discussão proveitosa deverá ocorrer entre os argumentos, não entre as pessoas dos contendores. Se eu trago para uma discussão meu juízo já estabelecido sobre o caráter, a índole, a personalidade do meu interlocutor, a discussão apenas servirá para a exposição desses valores já incorporados em mim: quero destruir a pessoa, não quero avaliar seu pensamento. Nesses casos, a discussão é inútil, porque já desistiu de qualquer racionalização.
As formas de discussão têm muito a ver, não há dúvida, com a cultura de um povo. Numa sociedade em que as emoções mais fortes têm livre curso, a discussão pode adotar com naturalidade uma veemência que em sociedades mais “frias” não teria lugar. Estão na cultura de cada povo os ingredientes básicos que temperam uma discussão. Seja como for, sem o compromisso com o exame atento das razões do outro, já não haverá o que discutir: estaremos simplesmente fincando pé na necessidade de proclamar a verdade absoluta, que seria a nossa. Em casos assim, falar ao outro é o mesmo que falar sozinho, diante de um espelho complacente, que refletirá sempre a arrogância da nossa vaidade.
(COSTA, Teobaldo, inédito)
Embora o termo discussão tenha um sentido bastante controverso, o elemento comum a toda discussão está no fato de que
- Aos dois antagonistas recusam-se terminantemente a chegar a um acordo, o qual só poderá ocorrer com a intervenção de um terceiro.
- Balgum acordo só será possível caso um dos contendores abra mão de suas razões, desistindo de confrontar a argumentação alheia.
- Cse revela para nós uma relação de alteridade que já é, a partir desse reconhecimento, a garantia de um acordo entre as posições.
- Dse impõe para nós a presença viva e indiscutível da outra pessoa, que também nos reconhece numa relação de alteridade. (alternativa correta)
- Eos dois contendores sentem igualmente necessidade de uma conciliação a partir dos argumentos levantados por ambos.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
O conceito-chave aqui é a alteridade, que significa o reconhecimento da existência e da perspectiva do outro como um ser distinto e válido, fundamental para qualquer interação humana, incluindo a discussão.
(A) Incorreta: O texto afirma que discussões podem levar a acordos ("acabaram concordando"), contradizendo a ideia de recusa terminante ou necessidade de intervenção externa em todos os casos.
(B) Incorreta: O texto valoriza o "exame atento das razões do outro" e a avaliação do pensamento, não a desistência de confrontar ou abrir mão das próprias razões como condição universal para o acordo.
(C) Incorreta: Embora mencione corretamente a "relação de alteridade", a alternativa erra ao afirmar que esse reconhecimento é uma garantia de acordo. O texto aponta que é um reconhecimento "a um tempo simples e difícil", não uma garantia de sucesso.
(D) Correta: O texto afirma explicitamente que "o que toda discussão supõe, sempre, é a presença de um outro diante de nós, para quem somos o outro." Isso se traduz na "presença viva e indiscutível da outra pessoa" e no reconhecimento mútuo de alteridade.
(E) Incorreta: O texto mostra que discussões podem ser hostis e não necessariamente partem de uma "necessidade de conciliação", como no exemplo da briga que "acabou na delegacia".
Fonte: FCC TRE-SP 2017 Analista Judiciário - Área Administrativa - Especialidade Contabilidade (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.