Questão nº 5
Questão de Língua Portuguesa · FCC SPPREV 2019 (nº 5)
Mais vale prevenir do que remediar
Os dicionários trazem lições fundamentais, quanto ao justo sentido das palavras: costumam revelar o seu sentido de origem e o de seu emprego atual. Os provérbios também são esclarecedores: numa forma sintética, formulam lições que nascem do que as criaturas aprendem de suas próprias experiências de vida.
Veja-se, por exemplo, o que afirma o provérbio "Mais vale prevenir do que remediar". Prevenir é "tomar a dianteira", "antecipar", tal como dispõe o dicionário. Uma palavra que serve de prima-irmã desse verbete é precaver*: daí que previdentes e precavidos seriam aqueles que preferem tomar medidas para não serem surpreendidos por fatos indesejáveis e incontornáveis. Nesse campo conceitual, a ideia comum é a valorização de iniciativas que se devem assumir para administrar o nosso destino até onde for possível. Sabemos todos, no entanto, que nem tudo se previne, e nem tudo tem remédio: vem daí outro provérbio popular, "o que não tem remédio, remediado está". Como se vê, admite que nem tudo tem solução, ao passo que o provérbio que dá o título deste texto insiste em valorizar toda ação pela qual se busca, justamente, evitar a etapa da falta de remédio: prevenir.*
Ainda caminhando pelos verbetes do dicionário e pelas falas dos provérbios, damos com a palavra providência*, que tem o sentido comum de "decisão", "encaminhamento". Ocorre que se vier com a inicial maiúscula − Providência − estará fazendo subentender a ação divina, a expressão maior de um poder que nos rege a todos. Há quem confie mais na Providência divina do que em qualquer outra instância humana; mas é bom lembrar que há também o provérbio "Deus ajuda a quem cedo madruga", no qual se sugere que a vontade divina conta com a disposição do nosso trabalho, do nosso empenho, da nossa iniciativa, para se dispor a nos ajudar. Não parece haver contradição alguma entre ter fé, confiar na Providência, e ao mesmo tempo acautelar-se, sendo previdente.*
A ordem providencial e a ordem previdenciária podem conviver pacificamente, num sistema de reforço mútuo, por que não? A diferença entre ambas está em que a segunda conta com a qualidade da nossa gestão, de vez que seremos responsáveis não apenas pelo espírito de cautela que nos anima, mas sobretudo pelas medidas a tomar para que se administre no presente o que deve ser feito com vistas à garantia de um bom futuro.
Está clara e correta a redação deste livre comentário sobre o texto:
- ACaso se soubessem das palavras o significado exato, muitas delas não se utilizaria atoa, mas atentando do que de fato é seu sentido no dicionário.
- BSe muitos acreditam que valem a pena tomar iniciativas diante do destino, sempre haverão os que preferem acautelar-se, com base na previsão possível dos fatos.
- CSão muito diversos, no caso das palavras previdência e providência, o que significam, por isso não se devem confundi-las e aplicar-lhes assim, sem conhecimento de causa.
- DPara colocar em pauta a questão da gestão, o autor socorreu-se do caso da previdência que, ao contrário da Providência, cuja força ninguém duvida, é preferível de administrar.
- EO autor sugere não haver qualquer incompatibilidade entre um ato de fé e a providência que alguém toma, acreditando que lhe seja útil no planejamento do futuro. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
O conceito-chave aqui é a coerência textual e a fidelidade ao sentido original. Em questões de reescrita, é preciso que a nova formulação mantenha o significado exato do texto base e esteja gramaticalmente correta, sem adicionar ou subtrair informações essenciais ou distorcer a ideia do autor.
(A) Incorreta: Apresenta erros gramaticais e de regência ("não se utilizaria atoa" deveria ser "não se utilizariam à toa"; "atentando do que" deveria ser "atentando para o que").
(B) Incorreta: Contém erro de concordância verbal ("haverão" deveria ser "haverá", pois o verbo "haver" no sentido de existir é impessoal) e distorce a ideia do texto, que não apresenta grupos opostos, mas a integração da iniciativa com a cautela.
(C) Incorreta: Apresenta problemas de colocação pronominal e regência ("confundi-las e aplicar-lhes" é inadequado; o pronome "lhes" não se encaixa bem aqui, seria "aplicá-las"). Além disso, embora o texto distinga os termos, a alternativa sugere uma proibição de confusão mais forte do que a explanação do autor.
(D) Incorreta: Distorce a comparação feita pelo autor. O texto não afirma que a "previdência" é "preferível de administrar" em relação à "Providência", mas sim que a "ordem previdenciária" envolve a nossa gestão e a responsabilidade humana, em contraste com a ação divina. A expressão "preferível de administrar" é também gramaticalmente inadequada.
(E) Correta: Esta alternativa resume com precisão a conclusão do autor no último parágrafo: "Não parece haver contradição alguma entre ter fé, confiar na Providência, e ao mesmo tempo acautelar-se, sendo previdente." A "fé" e a "confiança na Providência" correspondem a "ato de fé", e "acautelar-se, sendo previdente" e "planejamento do futuro" correspondem a "providência que alguém toma".
Fonte: FCC SPPREV 2019 Analista em Gestão Previdenciária (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.