Questão nº 9

Questão de Língua Portuguesa · FCC PMSP AMCI 2025 - Prova 1 (nº 9)

FCC2025Comum AMCI - GeralLíngua Portuguesa
Gabarito: Aver comentário ↓

Como arquiteto e paisagista, pertenço ao grupo de estudiosos que adota o ponto de vista do ordenador, que difere do planejador, embora ambos façam parte de um mesmo processo. O enfoque do ordenador resume-se na tentativa de avaliação da cidade como uma estrutura global do meio ambiente e não somente como uma série de elementos que fortuitamente se interligaram. É possível, por exemplo, avaliar a cidade em termos de experiência pela qual passam todas as pessoas que nela vivem. Primeiro, constroem as ruas, implantam a infraestrutura, depois os prédios e, se sobrar espaço, colocam uma ou duas árvores ou um chafariz. Em torno disso, pessoas e automóveis.

Outra forma de avaliação da cidade seria através da relação entre quatro elementos: edifícios, espaço para veículos, espaço para pedestres e elementos naturais. Estamos tão acostumados a viver rodeados por edifícios e automóveis que não nos ocorre a possibilidade de questionar se eles estão fora de proporção. O espaço para pedestres é o que sobrou do espaço destinado aos automóveis. Caminhamos contornando as calçadas, ao longo das ruas ou através de estacionamentos, se o automóvel nos der passagem. Nas cidades, especialmente no centro, a vegetação constitui apenas um elemento decorativo. Se as plantas fossem de plástico, não faria diferença nenhuma, já que não têm nenhuma função específica.

Na arquitetura, uma extensa série de argumentos históricos demonstram que as árvores não são necessárias à ordenação urbana. Um dos sempre repetidos é que a praça São Marcos, em Veneza, não tem árvores. Mas esse é um tipo de argumento evasivo, pois não explica como foi construída a praça São Marcos.

É preciso não esquecer que uma árvore tem funções comparáveis às de um prédio. Ela molda o espaço, dá abrigo, modera o clima e estabelece relacionamento entre nós e os espaços mais amplos que nos rodeiam. Como um dos principais elementos do meio ambiente, não é apenas uma peça decorativa, colocada defronte a um edifício: ordena o espaço da mesma maneira que a arquitetura molda o espaço.

Além das árvores e outros elementos que compõem o conjunto urbano, é igualmente importante considerar o tipo de relação que existe entre edifícios, veículos, pedestres e elementos naturais. Tomemos o caso de São Paulo. Sobrevoando a cidade de helicóptero, o panorama é espantoso. Por que um povo inteligente construiria edifícios de vinte andares, com fachadas cheias de janelas, afastadas a cada quatro ou cinco metros, através das quais os moradores só podem se ver uns aos outros?

(Adaptado de: ECKBO, Garret. O Paisagismo nas Grandes Metrópoles. São Paulo: Ateliê, 2008, pp. 39-42)


O texto de Garret Eckbo é uma condensação de palestras proferidas a convite da Secretaria dos Negócios Metropolitanos, em São Paulo. Nele,

Resposta comentada

Gabarito Alternativa A

O autor, um arquiteto e paisagista, defende uma visão holística da cidade, onde elementos naturais como árvores são funcionais e estruturais, não apenas decorativos, e critica o planejamento urbano que desconsidera essa integração.

(A) Correta: O texto compara o papel das árvores (tratadas como incidentais, ou seja, meramente decorativas e sem função específica, na prática urbana atual) e dos edifícios (que são estruturais). Ao descrever o planejamento de São Paulo, o autor o apresenta como uma realidade existente e validada (sancionada pelas autoridades ou pela prática), mesmo que ele a critique, tudo isso dentro de sua visão de avaliar a cidade como uma estrutura global. A "pegadinha" aqui é interpretar "incidental" como a percepção atual das árvores e "sanciona" como reconhece a existência e validação prática do planejamento, e não como uma aprovação do autor.

(B) Incorreta: O autor não busca hierarquizar elementos por níveis de relevância, mas sim argumentar pela importância estrutural dos elementos naturais, que são frequentemente subestimados, e criticar a desproporção existente. As perspectivas não são "convergentes em seu resultado", pois uma é a crítica e a outra é a proposta do autor.

(C) Incorreta: Embora o autor verse sobre modos de avaliação e defenda o papel estruturante da natureza, a expressão "deixa entrever" é imprecisa. O autor é bastante direto e explícito ao afirmar o papel estrutural das árvores, não apenas o "sugere" ou "dá a entender" sutilmente.

(D) Incorreta: O autor critica a realidade de São Paulo, não a "alinha" à sua perspectiva. Além disso, o exemplo de São Paulo está no quinto parágrafo, não nos dois primeiros, e a Praça São Marcos é usada para refutar um argumento, não como um exemplo paradigmático para sua própria visão.

(E) Incorreta: Embora o autor discuta formas de avaliação, os exemplos de Veneza e São Paulo não são usados como "diametralmente opostos para sua perspectiva". São Paulo é um exemplo negativo de planejamento. Veneza (Praça São Marcos) é usada para refutar um argumento específico sobre a necessidade de árvores, não como um modelo oposto a São Paulo em termos de sua própria perspectiva geral.

Fonte: FCC PMSP AMCI 2025 - Prova 1 Conhecimentos Comuns (AMCI - Geral) (Caderno Tipo 004). Reproduzida para fins de estudo.

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