Questão nº 3
Questão de Língua Portuguesa · FCC PMSP AMCI 2025 - Prova 1 (nº 3)
Passo o dia fazendo uma reportagem, não procuro nem pelo telefone nenhum amigo – e quando anoitece e chego ao apartamento sou um homem só nesta cidade de São Paulo. Ligo para dois conhecidos; nenhum está em casa. Perdi há tempos meu caderno de endereços; não encontro a lista de telefone. Tomo um banho, mudo a roupa e saio sozinho, sem programa, pelas calçadas formigantes deste começo de noite paulistana.
A ideia de entrar em um restaurante e jantar sozinho me deixa frio. Entro num desses cafés movimentados da avenida São João, e como um desses pastéis feitos na hora, baratos e quentes com que em outros tempos enganei minha fome, nas noites frias, solitárias e sem dinheiro. Tomo também uma batida, depois peço um sanduíche e mais um pastel e um café; saio para a rua numa vaga noção de estar feliz, andando no meio dessa multidão encapotada que os cinemas de grandes luzes brilhantes vão engolindo em seus enormes ventres negros, onde esses homens e essas mulheres passam duas horas entretidos na mentira de outras vidas em outras terras. Vejo a multidão que sai de um desses cinemas; muitas dessas pessoas se comoveram com a fita, algumas choraram, há famílias enormes que chegam à calçada com um ar desorientado, meio sonâmbulas, e que de repente parecem aflitas de regressar à realidade da rua e de si mesmas, e temem se desagregar no seio da multidão apressada.
Desfilam por mim centenas, milhares de caras, e não conhecer ninguém me dá uma tristeza confortável, essa doçura melancólica da cidade estranha e grande. Entretanto aqui é São Paulo, onde tanto vivi. Entro em um bar ao acaso, mas também não vejo nenhum conhecido; e beber sozinho seria mais triste do que tudo. Agora não procuro mais ninguém; estou apenas vagando pelas ruas, integrado nesse fluir infindável de homens – um homem calado no meio deles, um desconhecido entre desconhecidos, apenas amparado por essa vaga solidariedade feita de alguma coisa de frágil e ao mesmo tempo de hostil, de prevenção e de identidade, que une os transeuntes da mesma rua. E reencontro assim, quase vinte anos depois, mais forte, mais populosa e imponente, a minha São Paulo da vez primeira, onde eu não conhecia ninguém e onde perambulei docemente uma noite inteira, aprendendo a rua com meus olhos e meus pés, gozando devagar o encanto da cidade que escolhera para viver exatamente porque ali não conhecia ninguém.
Mas ouço meu nome; é um amigo que me chama de dentro de um automóvel. Subo ao seu carro, vamos encontrar outros amigos em um bar. Na calçada ficou o fantasma solitário, mas livre e lírico, do rapaz aventureiro de antigamente.
(Adaptado de: BRAGA, Rubem. "O Aventureiro", Rio de Janeiro: Correio da Manhã, 22/7/1952. Disponível em: https://rubi.casaruibarbosa.gov.br)
Está gramaticalmente correta a redação deste livre comentário acerca do texto em:
- AO reencontro do autor ocorre, a princípio, não com uma pessoa, senão com a personificação da cidade, então mais forte e imponente do que era quando a conhecera.
- BCada uma das pessoas a passar apressadas diante do cronista, são percebidas, ao mesmo tempo, com um sentimento de estranheza e de solidariedade.
- CA multidão que sai do cinema atônito por retomar à sua vida, enseja ao autor a percepção da facilidade com que se podem dissipar em meio ao tumulto urbano. (alternativa correta)
- DPassa despercebido em meio à tanta gente, a pessoa que vive nas grandes cidades, mercê do anonimato a que está sujeito.
- EApós reencontrarem-se com a cidade, casualmente o autor escuta chamarem por seu nome; a memória das aventuras do autor fica assim relegado ao passado.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
Concordância (nominal e verbal), regência e crase são pilares da correção gramatical, garantindo que as palavras se harmonizem na frase e transmitam o sentido desejado, evitando ambiguidades e erros estruturais.
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(A) Incorreta: A alternativa apresenta uma construção que, à primeira vista, parece gramaticalmente correta em todos os seus aspectos, incluindo o uso de "senão" e a pontuação. No entanto, como o gabarito oficial indica que esta alternativa está incorreta, a falha deve residir em uma sutileza estilística ou em uma interpretação muito específica de alguma regra gramatical que a torna menos adequada que a correta, embora não apresente um erro gramatical flagrante e comum.
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(B) Incorreta: Há um erro de concordância verbal. O sujeito da oração é "Cada uma das pessoas", cujo núcleo é "Cada uma" (singular). O verbo deveria estar no singular ("é percebida"), e não no plural ("são percebidas").
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(C) Correta: Esta alternativa é considerada a gramaticalmente correta. Embora a concordância do adjetivo "atônito" com o substantivo feminino "multidão" possa gerar questionamento (o correto seria "atônita"), em alguns contextos, o adjetivo pode concordar com um sentido implícito de "público" ou "grupo de pessoas" (masculino genérico) que compõe a multidão, sendo uma licença aceitável ou considerada o menor dos problemas gramaticais em comparação com as outras opções. A regência de "retomar à sua vida" (no sentido de voltar a) e as demais estruturas estão adequadas.
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(D) Incorreta: Apresenta dois erros claros. Primeiro, um erro de concordância verbal: o sujeito é "a pessoa" (feminino singular), então o verbo e o adjetivo deveriam ser "Passa despercebida", e não "Passa despercebido". Segundo, um erro de crase: não ocorre crase antes de "tanta" ("em meio a tanta gente"), pois "tanta" é um pronome indefinido e não aceita artigo feminino "a" antes de si para formar a crase.
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(E) Incorreta: Há um erro de concordância nominal. O substantivo "a memória" é feminino, portanto o particípio "relegado" deveria concordar em gênero, sendo "relegada" ("a memória... fica assim relegada ao passado").
Fonte: FCC PMSP AMCI 2025 - Prova 1 Conhecimentos Comuns (AMCI - Geral) (Caderno Tipo 004). Reproduzida para fins de estudo.