Questão nº 4
Questão de Língua Portuguesa · FCC PMSP AMCI 2025 - Prova 1 (nº 4)
Passo o dia fazendo uma reportagem, não procuro nem pelo telefone nenhum amigo – e quando anoitece e chego ao apartamento sou um homem só nesta cidade de São Paulo. Ligo para dois conhecidos; nenhum está em casa. Perdi há tempos meu caderno de endereços; não encontro a lista de telefone. Tomo um banho, mudo a roupa e saio sozinho, sem programa, pelas calçadas formigantes deste começo de noite paulistana.
A ideia de entrar em um restaurante e jantar sozinho me deixa frio. Entro num desses cafés movimentados da avenida São João, e como um desses pastéis feitos na hora, baratos e quentes com que em outros tempos enganei minha fome, nas noites frias, solitárias e sem dinheiro. Tomo também uma batida, depois peço um sanduíche e mais um pastel e um café; saio para a rua numa vaga noção de estar feliz, andando no meio dessa multidão encapotada que os cinemas de grandes luzes brilhantes vão engolindo em seus enormes ventres negros, onde esses homens e essas mulheres passam duas horas entretidos na mentira de outras vidas em outras terras. Vejo a multidão que sai de um desses cinemas; muitas dessas pessoas se comoveram com a fita, algumas choraram, há famílias enormes que chegam à calçada com um ar desorientado, meio sonâmbulas, e que de repente parecem aflitas de regressar à realidade da rua e de si mesmas, e temem se desagregar no seio da multidão apressada.
Desfilam por mim centenas, milhares de caras, e não conhecer ninguém me dá uma tristeza confortável, essa doçura melancólica da cidade estranha e grande. Entretanto aqui é São Paulo, onde tanto vivi. Entro em um bar ao acaso, mas também não vejo nenhum conhecido; e beber sozinho seria mais triste do que tudo. Agora não procuro mais ninguém; estou apenas vagando pelas ruas, integrado nesse fluir infindável de homens – um homem calado no meio deles, um desconhecido entre desconhecidos, apenas amparado por essa vaga solidariedade feita de alguma coisa de frágil e ao mesmo tempo de hostil, de prevenção e de identidade, que une os transeuntes da mesma rua. E reencontro assim, quase vinte anos depois, mais forte, mais populosa e imponente, a minha São Paulo da vez primeira, onde eu não conhecia ninguém e onde perambulei docemente uma noite inteira, aprendendo a rua com meus olhos e meus pés, gozando devagar o encanto da cidade que escolhera para viver exatamente porque ali não conhecia ninguém.
Mas ouço meu nome; é um amigo que me chama de dentro de um automóvel. Subo ao seu carro, vamos encontrar outros amigos em um bar. Na calçada ficou o fantasma solitário, mas livre e lírico, do rapaz aventureiro de antigamente.
(Adaptado de: BRAGA, Rubem. "O Aventureiro", Rio de Janeiro: Correio da Manhã, 22/7/1952. Disponível em: https://rubi.casaruibarbosa.gov.br)
Considere o uso de pronomes nos seguintes trechos do terceiro parágrafo do texto:
essa doçura melancólica da cidade estranha e grande.
que une os transeuntes da mesma rua.
onde perambulei docemente
Os termos sublinhados referem-se, respectivamente, a
- Acidade – vaga solidariedade – rua
- Btristeza confortável – vaga solidariedade – São Paulo (alternativa correta)
- Cnão conhecer ninguém – identidade – São Paulo
- Dnão conhecer ninguém – vaga solidariedade – rua
- Etristeza confortável – identidade – rua
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
A referência pronominal é a relação entre um pronome (ou palavra com função pronominal) e o termo (antecedente) que ele substitui ou retoma no texto, garantindo a coesão e evitando repetições.
- (A) Incorreta: "cidade" não é o referente direto de "essa"; "rua" não é o referente direto de "onde".
- (B) Correta:
- "essa" retoma "tristeza confortável", qualificando-a como "doçura melancólica".
- "que" retoma "vaga solidariedade", que é o conceito que une os transeuntes.
- "onde" retoma "São Paulo", o lugar revisitado pelo narrador.
- (C) Incorreta: "não conhecer ninguém" é a causa da tristeza, não o referente de "essa"; "identidade" é parte da "vaga solidariedade", mas não o referente direto de "que".
- (D) Incorreta: "não conhecer ninguém" é a causa da tristeza, não o referente de "essa"; "rua" não é o referente direto de "onde".
- (E) Incorreta: "identidade" é parte da "vaga solidariedade", mas não o referente direto de "que"; "rua" não é o referente direto de "onde".
Fonte: FCC PMSP AMCI 2025 - Prova 1 Conhecimentos Comuns (AMCI - Geral) (Caderno Tipo 004). Reproduzida para fins de estudo.