Questão nº 7
Questão de Língua Portuguesa · FCC PMSP AMCI 2025 - Prova 1 (nº 7)
Passo o dia fazendo uma reportagem, não procuro nem pelo telefone nenhum amigo – e quando anoitece e chego ao apartamento sou um homem só nesta cidade de São Paulo. Ligo para dois conhecidos; nenhum está em casa. Perdi há tempos meu caderno de endereços; não encontro a lista de telefone. Tomo um banho, mudo a roupa e saio sozinho, sem programa, pelas calçadas formigantes deste começo de noite paulistana.
A ideia de entrar em um restaurante e jantar sozinho me deixa frio. Entro num desses cafés movimentados da avenida São João, e como um desses pastéis feitos na hora, baratos e quentes com que em outros tempos enganei minha fome, nas noites frias, solitárias e sem dinheiro. Tomo também uma batida, depois peço um sanduíche e mais um pastel e um café; saio para a rua numa vaga noção de estar feliz, andando no meio dessa multidão encapotada que os cinemas de grandes luzes brilhantes vão engolindo em seus enormes ventres negros, onde esses homens e essas mulheres passam duas horas entretidos na mentira de outras vidas em outras terras. Vejo a multidão que sai de um desses cinemas; muitas dessas pessoas se comoveram com a fita, algumas choraram, há famílias enormes que chegam à calçada com um ar desorientado, meio sonâmbulas, e que de repente parecem aflitas de regressar à realidade da rua e de si mesmas, e temem se desagregar no seio da multidão apressada.
Desfilam por mim centenas, milhares de caras, e não conhecer ninguém me dá uma tristeza confortável, essa doçura melancólica da cidade estranha e grande. Entretanto aqui é São Paulo, onde tanto vivi. Entro em um bar ao acaso, mas também não vejo nenhum conhecido; e beber sozinho seria mais triste do que tudo. Agora não procuro mais ninguém; estou apenas vagando pelas ruas, integrado nesse fluir infindável de homens – um homem calado no meio deles, um desconhecido entre desconhecidos, apenas amparado por essa vaga solidariedade feita de alguma coisa de frágil e ao mesmo tempo de hostil, de prevenção e de identidade, que une os transeuntes da mesma rua. E reencontro assim, quase vinte anos depois, mais forte, mais populosa e imponente, a minha São Paulo da vez primeira, onde eu não conhecia ninguém e onde perambulei docemente uma noite inteira, aprendendo a rua com meus olhos e meus pés, gozando devagar o encanto da cidade que escolhera para viver exatamente porque ali não conhecia ninguém.
Mas ouço meu nome; é um amigo que me chama de dentro de um automóvel. Subo ao seu carro, vamos encontrar outros amigos em um bar. Na calçada ficou o fantasma solitário, mas livre e lírico, do rapaz aventureiro de antigamente.
(Adaptado de: BRAGA, Rubem. "O Aventureiro", Rio de Janeiro: Correio da Manhã, 22/7/1952. Disponível em: https://rubi.casaruibarbosa.gov.br)
Considere as afirmativas abaixo acerca da pontuação do texto.
I. A substituição de ponto e vírgula por dois-pontos em Mas ouço meu nome; é um amigo que me chama... (último parágrafo) rompe a simples justaposição de orações, tornando a segunda uma explicação da primeira.
II. Caso se acrescente uma vírgula imediatamente antes de assim, em E reencontro assim, quase vinte anos depois, mais forte, mais populosa (3º parágrafo), o termo passaria a ter sentido predominantemente conclusivo.
III. Em algumas choraram, há famílias enormes (2º parágrafo), a substituição da vírgula por ponto final, seguido de inicial maiúscula, mantém a correção e, em linhas gerais, o sentido do texto original.
Está correto o que consta em
- AII e III, apenas.
- BIII, apenas. (alternativa correta)
- CI, II e III.
- DI e II, apenas.
- EI, apenas.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
A pontuação é essencial para a clareza e o sentido de um texto, indicando pausas, entonações e as relações sintáticas e semânticas entre as orações e termos.
- (A) Incorreta: A substituição de ponto e vírgula por dois-pontos em "Mas ouço meu nome; é um amigo que me chama..." faria da segunda oração uma explicação ou identificação da primeira, o que é uma função dos dois-pontos. No entanto, a afirmação de que isso "rompe a simples justaposição" é questionável, pois o ponto e vírgula já estabelece uma relação de proximidade entre as orações, que não é meramente uma "simples justaposição" no sentido de uma lista, mas sim uma conexão de ideias relacionadas. A mudança alteraria a nuance da conexão, mas não necessariamente "romperia" uma "simples" justaposição.
- (B) Correta: A substituição da vírgula por ponto final, seguido de inicial maiúscula, em "algumas choraram, há famílias enormes" cria duas frases gramaticalmente independentes e corretas. Embora a pausa seja mais forte, o sentido geral de que pessoas choraram e que havia famílias saindo do cinema é mantido, apenas apresentado em sentenças separadas, sem alterar a informação essencial.
- (C) Incorreta: A inclusão de uma vírgula antes de "assim" em "E reencontro assim, quase vinte anos depois..." resultaria em "E reencontro, assim, quase vinte anos depois...". Nesse contexto, "assim" continuaria a funcionar como um advérbio de modo ("dessa forma", "desse jeito", referindo-se à maneira como ele reencontra São Paulo após a divagação), e não como um conectivo de sentido predominantemente conclusivo. Para ter sentido conclusivo, "assim" geralmente exige uma separação mais forte (ponto e vírgula ou ponto final) antes dele e introduz uma nova oração que expressa uma consequência.
- (D) Incorreta: Pelas razões expostas acima, as afirmativas I e II são incorretas.
- (E) Incorreta: Pela razão exposta acima, a afirmativa I é incorreta.
Fonte: FCC PMSP AMCI 2025 - Prova 1 Conhecimentos Comuns (AMCI - Geral) (Caderno Tipo 004). Reproduzida para fins de estudo.