Questão nº 18
Questão de Língua Portuguesa · FCC PMSP AMCI 2025 - Prova 1 (nº 18)
A pobreza existe em toda a parte, mas sua definição é relativa a uma determinada sociedade. Estamos lidando com uma noção historicamente determinada. É por isso que comparações de diferentes séries temporais levam frequentemente à confusão. A combinação de variáveis, assim como sua definição, mudam ao longo do tempo; a definição dos fenômenos resultantes também muda.
De que adianta afirmar que um indivíduo é menos pobre agora, em comparação à situação de dez anos atrás, ou que é menos pobre na cidade em comparação à sua situação no campo, se esse indivíduo não tem mais o mesmo padrão de valores, inclusive no que se refere aos bens materiais? A única medida válida é a atual, dada pela situação relativa do indivíduo na sociedade a que pertence.
Segundo Bachelard, é mais importante compreender um fenômeno do que medi-lo. A medida da pobreza é dada antes de mais nada pelos objetivos que a sociedade determinou para si própria. É inútil procurar uma definição numérica para uma realidade cujas dimensões – agora e no futuro – serão definidas pela influência recíproca dos fatores econômicos e sociais peculiares a cada país. Além do que um indivíduo não é mais pobre ou menos pobre porque consome um pouco menos ou um pouco mais.
A definição de pobreza deve ir além das pesquisas estatísticas para situar o homem na sociedade global à qual pertence, porquanto a pobreza não é apenas uma categoria econômica, mas também uma categoria política acima de tudo. Estamos lidando com um problema social.
Há, na verdade, diferentes tipos de pobreza, tanto a nível internacional quanto dentro de cada país. Por isso, não tem sentido procurar uma definição matemática ou estática. Conforme acentuou L. Buchanan, "o termo 'pobreza' não só implica um estado de privação material como também um modo de vida – e um conjunto complexo e duradouro de relações e instituições sociais, econômicas, culturais e políticas criadas para encontrar segurança dentro de uma situação insegura".
(Adaptado de: SANTOS, Milton. Pobreza Urbana. São Paulo: Edusp, 3.ed., 2009, pp. 18-19)
No último parágrafo do texto,
- Aa consideração de que há diferentes tipos de pobreza, a variar de acordo com a cultura de cada povo, remete a um fenômeno cuja delimitação vem a ser contraproducente para os estudos na área.
- Ba responsabilização de instituições sociais, econômicas e políticas aponta para o verdadeiro motor do problema e deflagra, numa perspectiva diacrônica, os agentes responsáveis por sua permanência.
- Ca despeito da dificuldade em definir pobreza, aponta-se para um traço distintivo desse fenômeno, qual seja, uma conjuntura social que se desenvolveu na busca por segurança dentro de uma situação insegura. (alternativa correta)
- Dcom recurso a L. Buchanan, o autor insere uma discordância em relação a Bachelard, uma vez que a própria compreensão do problema seria comprometida sem as séries históricas.
- Ea referência a um ...conjunto complexo e duradouro de relações e instituições... é uma ressalva ao método de análise puramente sincrônico aventado anteriormente.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
O conceito-chave do último parágrafo é que a pobreza é um fenômeno social complexo, que vai além da privação material e envolve um modo de vida e um conjunto de relações e instituições sociais, econômicas, culturais e políticas, buscando segurança em um contexto de insegurança.
- A) Incorreta: O texto não afirma que a delimitação da pobreza seja contraproducente para estudos. Pelo contrário, ele busca uma compreensão mais profunda e complexa do fenômeno, criticando apenas as definições simplistas ou puramente numéricas.
- B) Incorreta: Embora a citação de Buchanan mencione instituições, ela as descreve como parte de um "conjunto complexo e duradouro de relações e instituições... criadas para encontrar segurança", e não como o "verdadeiro motor do problema" ou agentes responsáveis por sua permanência em uma perspectiva diacrônica (histórica de causa e efeito) de responsabilização. A citação descreve a estrutura da pobreza, não sua causa ou culpa. Armadilha da banca: É tentador associar a menção de "instituições" à "responsabilização" em um problema social, mas o texto de Buchanan descreve a função dessas instituições dentro do modo de vida da pobreza (buscar segurança), e não as aponta como culpadas pela sua existência ou permanência.
- C) Correta: O parágrafo começa afirmando a dificuldade em definir pobreza ("não tem sentido procurar uma definição matemática ou estática"). Em seguida, a citação de L. Buchanan aponta um traço distintivo: a pobreza não é só privação material, mas um "modo de vida" e um "conjunto complexo e duradouro de relações e instituições sociais, econômicas, culturais e políticas criadas para encontrar segurança dentro de uma situação insegura". Isso se encaixa perfeitamente na descrição de "uma conjuntura social que se desenvolveu na busca por segurança dentro de uma situação insegura".
- D) Incorreta: Não há discordância entre o autor e Bachelard. A citação de Buchanan complementa a ideia de Bachelard de que é mais importante compreender do que medir a pobreza, ao detalhar a complexidade dessa compreensão. A discussão sobre séries históricas (diacronia) foi feita anteriormente no texto, e Buchanan não a contradiz, mas aprofunda a natureza complexa da pobreza.
- E) Incorreta: A referência ao "conjunto complexo e duradouro de relações e instituições" não é uma ressalva a um método puramente sincrônico (análise de um momento específico). O texto já havia estabelecido a natureza historicamente determinada (diacrônica) da pobreza. A citação de Buchanan descreve a natureza multifacetada da pobreza em sua manifestação, que pode ser analisada tanto sincrônica quanto diacronicamente, e não uma crítica a um tipo específico de análise.
Fonte: FCC PMSP AMCI 2025 - Prova 1 Conhecimentos Comuns (AMCI - Geral) (Caderno Tipo 004). Reproduzida para fins de estudo.