Questão nº 9
Questão de Língua Portuguesa · FCC PM-AP 2025 (nº 9)
[A força necessária dos princípios]
Não vamos subestimar a força daquilo a que nos opomos. O mundo é, para todos nós, aquilo sobre o qual não temos quase nenhum controle. O senso comum e o sentido de autoproteção nos dizem para nos acomodarmos àquilo que não podemos mudar.
Não é difícil ver como alguns de nós poderíamos ser convencidos da justiça, da necessidade das violências. Pense-se numa guerra que é formulada como série de ações militares pequenas, que irão de fato contribuir para a paz ou reforçar a segurança. Todas as violências na guerra foram justificadas como uma retaliação necessária: estamos nos defendendo, eles é que querem nos matar.
Diante das violências em curso, alguém dotado de um princípio moral parece alguém que corre ao lado de um trem e grita: "Pare! Pare!" O trem pode ser detido? Será que outras pessoas dentro do trem vão se sentir dispostas a saltar e unir-se aos que estão fora? Talvez alguns o façam, mas não a maioria.
Agir por princípio é um gesto político, no sentido de que não estamos fazendo isso por nós mesmos. Não fazemos isso só para agir corretamente ou para aplacar a nossa consciência; muito menos porque estamos certos de que a nossa ação vai de fato alcançar o seu objetivo. Resistimos como um ato de solidariedade com todas as pessoas e comunidades que agem igualmente por algum princípio moral.
As ações comandadas por um bom princípio nos dizem que não temos de pensar se agir por princípio é adequado, ou se podemos contar com o êxito final das ações que levamos a efeito. Agir por princípio é bom em si mesmo. Os princípios nos convidam a fazer algo a respeito do pântano de contradições em que agimos moralmente. Os princípios nos convidam a ter mais rigor em nossas ações, ser intolerantes com a frouxidão moral, a contemporização, a covardia e com a fuga diante do que é perturbador. No curso da História encontram-se os grandes modelos de resistência, os feitos daqueles que, por princípio, agiram dizendo não à negação dos princípios justos. Inspiremo-nos nesses modelos.
(Adaptado de: SONTAG, Susan. Ao mesmo tempo. Trad. Rubens Figueiredo. São Paulo, Companhia das Letras, p.192-193, passim)
A afirmação Agir por princípio é bom em si mesmo (5º parágrafo),
- Amanifesta a convicção de que a eventual frouxidão moral deve ser aceita por quem está seguro de seus princípios.
- Bentra em contradição com a afirmação Não fazemos isso só para agir corretamente (4º parágrafo).
- Ccorrobora a ideia de que os princípios morais ganham importância na medida em que se provam eficazes.
- Dfaz ver que toda conduta norteada por valores morais é intrinsecamente meritória, por força dos princípios que a regem. (alternativa correta)
- Eassegura que os que gritam "Pare! Pare!" (3ª parágrafo) logram refrear de vez a velocidade do trem.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
O texto defende que agir por princípio tem um valor inerente, ou seja, é bom por si só, independentemente dos resultados ou da aprovação externa.
(A) Incorreta: O texto afirma o oposto, que os princípios convidam a ser "intolerantes com a frouxidão moral".
(B) Incorreta: A afirmação "Não fazemos isso só para agir corretamente" significa que há outras razões para agir por princípio (como solidariedade e o fato de ser bom em si mesmo), não que agir corretamente não seja parte disso. Não há contradição.
(C) Incorreta: O texto explicitamente nega que a ação por princípio dependa do "êxito final" ou de "alcançar o seu objetivo", ou seja, não se baseia na eficácia. (Armadilha da banca): Esta alternativa é tentadora porque, no senso comum, a importância de uma ação muitas vezes é medida por seus resultados. No entanto, o texto de Sontag desafia essa visão, argumentando que a ação por princípio tem valor intrínseco, não condicionado ao sucesso.
(D) Correta: A expressão "intrinsicamente meritória" é sinônimo de "bom em si mesmo", significando que o mérito da conduta vem da própria natureza dos princípios morais que a guiam, e não de seus efeitos ou da percepção de quem a pratica.
(E) Incorreta: O texto questiona a eficácia de parar o trem, afirmando que "Talvez alguns o façam, mas não a maioria", indicando que o sucesso não é garantido.
Fonte: FCC PM-AP 2025 Oficial Combatente da Polícia Militar do Estado do Amapá (Caderno Tipo 002). Reproduzida para fins de estudo.