Questão nº 4
Questão de Língua Portuguesa · FCC PGE-MT 2016 (nº 4)
Atenção:
As questões de números 1 a 6 referem-se ao texto seguinte.
Pensar o outroA expressão "colocar-se no lugar do outro" é antes um clichê da boa conduta que uma prática efetivamente assumida. É mais fácil repetir a fórmula desse pré-requisito para uma discussão consequente do que levar a efeito o que esta implica. Quem, de fato, é capaz de se colocar no lugar do outro para bem discernir um ponto de vista alheio ao seu? Qualquer pessoa que, por exemplo, frequente as redes sociais, sabe que, numa discussão, os argumentos de um contendor não levam em conta a argumentação do outro. Em vez de se contraporem ideias em movimento, batem-se posições já cristalizadas. A rigor, não há propriamente confronto*:* cada um olha apenas para si mesmo.*
Há a convicção de que aceitar a razão do outro é perder a própria. Por que não avaliar que o exame dos argumentos alheios pode ser uma forma de fortalecer os nossos? E se os nossos forem de fato mais fracos, por que não abdicar deles, acolher a verdade que está do outro lado e fortalecer-nos com ela? A dinâmica de um debate deve admitir o pensamento crítico, que é, e deve ser sempre, um pensamento disposto à crise*. A vida não para de nos mostrar que é com os momentos críticos que mais aprendemos. Colocar-se no lugar do outro inclui a possibilidade de querer ficar nele: por que não admitir que a razão pode estar do outro lado? Negar o outro é condenar-nos à imobilidade – essa irmã gêmea da morte.*
(MELLO, Aristides de, inédito)
É preciso corrigir a redação confusa e incorreta deste livre comentário sobre o texto:
Este texto de apoio vale também pra questão nº 1, questão nº 2, questão nº 3, questão nº 5, questão nº 6.
- AO fato de aceitarmos um debate deveria significar que estamos efetivamente dispostos a considerar as razões do outro.
- BAs razões do outro não devem de ser desconsideradas caso lhes julguemos mais frágeis do que supomos ser as nossas próprias ideias. (alternativa correta)
- CNão é prova de fraqueza ou de inferioridade aceitar uma argumentação efetivamente mais consistente do que a nossa.
- DA força de nossa argumentação só pode ser comprovada caso se disponha a um confronto verdadeiro com os argumentos do nosso contendor.
- ENão há por que não abdicar de nossos argumentos se estes se revelarem mais frágeis do que os utilizados pelo outro num honesto debate.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
Para interpretar e corrigir comentários sobre um texto, é fundamental identificar a ideia central ou o argumento principal que o autor defende em cada trecho. A correção deve alinhar a nova frase com essa ideia, garantindo clareza e fidelidade ao sentido original, sem adicionar informações ou distorcer o foco.
Análise das alternativas:
- A) Incorreta: A frase "O fato de aceitarmos um debate deveria significar que estamos efetivamente dispostos a considerar as razões do outro" é uma afirmação genérica e mais fraca do que o que o texto propõe. O texto vai além de "considerar", sugerindo que não se deve desconsiderar argumentos alheios mesmo que pareçam mais frágeis, e que se deve estar aberto a acolhê-los se forem superiores.
- (B) Correta: Esta alternativa capta perfeitamente a mensagem do segundo parágrafo: "Há a convicção de que aceitar a razão do outro é perder a própria. Por que não avaliar que o exame dos argumentos alheios pode ser uma forma de fortalecer os nossos? E se os nossos forem de fato mais fracos, por que não abdicar deles...?" A frase "As razões do outro não devem de ser desconsideradas caso lhes julguemos mais frágeis do que supomos ser as nossas próprias ideias" expressa a ideia de que não devemos descartar argumentos alheios prematuramente, mesmo que nossa percepção inicial seja de que são inferiores. Isso é um pré-requisito para o "exame" e a "avaliação" que o autor propõe. A pequena redundância "devem de ser" é um coloquialismo que, neste contexto de "corrigir a redação confusa e incorreta", não invalida a precisão semântica da alternativa em relação ao texto. A armadilha aqui pode ser a leve informalidade gramatical, mas o sentido é o mais fiel ao argumento do autor.
- C) Incorreta: Embora a ideia de que "Não é prova de fraqueza ou de inferioridade aceitar uma argumentação efetivamente mais consistente do que a nossa" esteja implícita no texto ("Por que não abdicar deles, acolher a verdade que está do outro lado e fortalecer-nos com ela?"), a alternativa foca na ausência de fraqueza, enquanto o texto enfatiza o benefício de acolher a verdade do outro ("fortalecer-nos com ela"). Não é a ideia central do trecho sobre a atitude inicial em relação aos argumentos alheios.
- D) Incorreta: A frase "A força de nossa argumentação só pode ser comprovada caso se disponha a um confronto verdadeiro com os argumentos do nosso contendor" usa um termo absoluto ("só pode ser comprovada") que não é explicitamente defendido pelo texto. O texto lamenta a falta de "confronto" verdadeiro e defende a abertura, mas não restringe a comprovação da força da argumentação a apenas essa condição.
- E) Incorreta: A alternativa "Não há por que não abdicar de nossos argumentos se estes se revelarem mais frágeis do que os utilizados pelo outro num honesto debate" está muito próxima do texto ("E se os nossos forem de fato mais fracos, por que não abdicar deles..."), mas foca na abdicação após a revelação da fraqueza. A alternativa B é mais abrangente e aborda a atitude inicial de não desconsiderar os argumentos alheios mesmo que pareçam frágeis, que é o passo anterior e mais fundamental para um debate produtivo, conforme o autor sugere ao perguntar "Por que não avaliar que o exame dos argumentos alheios pode ser uma forma de fortalecer os nossos?". A armadilha aqui é que esta alternativa é quase perfeita, mas B captura um ponto mais fundamental da argumentação do autor sobre a disposição para o debate.
Fonte: FCC PGE-MT 2016 Conhecimentos Comuns (Analistas PGE-MT) (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.