Questão nº 10
Questão de Língua Portuguesa · FCC MPMT 2019 (nº 10)
Antropologia reversa
É sempre tarefa difícil – no limite, impossível – compreender o outro não a partir de nós mesmos, ou seja, de nossas categorias e preocupações, mas de sua própria perspectiva e visão de mundo. “Quando os antropólogos chegam”, diz um provérbio haitiano, “os deuses vão embora”.
Os invasores coloniais europeus, com raras exceções, consideravam os povos autóctones do Novo Mundo como crianças amorais ou boçais supersticiosos – matéria escravizável. Mas como deveriam parecer aos olhos deles aqueles europeus? “Onde quer que os homens civilizados surgissem pela primeira vez”, resume o filósofo romeno Emil Cioran, “eles eram vistos pelos nativos como demônios, como fantasmas ou espectros, nunca como homens vivos! Eis uma intuição inigualável, um insight profético, se existe um”.
O líder ianomâmi Davi Kopenawa, porta-voz de um povo milenar situado no norte da Amazônia e ameaçado de extinção, oferece um raro e penetrante registro contra-antropológico do mundo branco com o qual tem convivido: “As mercadorias deixam os brancos eufóricos e esfumaçam todo o resto em suas mentes [...] Seu pensamento está tão preso a elas, são de fato apaixonados por elas! Dormem pensando nelas, como quem dorme com a lembrança saudosa de uma bela mulher. Elas ocupam seu pensamento por muito tempo, até vir o sono. Os brancos não sonham tão longe quanto nós. Dormem muito, mas só sonham consigo mesmos”.
(Adaptado de GIANETTI, Eduardo. Trópicos utópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 118-119)
O raro e penetrante registro contra-antropológico do líder Davi Kopenawa
- Aanalisa a relação superficial que os brancos estabelecem com suas necessidades instintivas de sobrevivência.
- Bconstata que a cultura dos brancos é obcecada por um materialismo por conta do qual os sonhos se reduzem às mercadorias. (alternativa correta)
- Capoia-se na percepção de que as criaturas supersticiosas não são de todo representativas das culturas indígenas.
- Dcontradiz a observação conclusiva do filósofo romeno Emil Cioran a respeito dos povos autóctones do Novo Mundo.
- Efundamenta-se na hipótese de que os brancos costumam considerar que as culturas primitivas são desprovidas de moralidade.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
A "antropologia reversa" ou "registro contra-antropológico" é a prática de ver e analisar a própria cultura ou a cultura dominante a partir da perspectiva de um "outro", geralmente uma cultura marginalizada ou não ocidental. É inverter o olhar antropológico tradicional.
- (A) Incorreta: Kopenawa descreve uma paixão e uma obsessão profunda dos brancos pelas mercadorias, o que não se alinha com uma "relação superficial". Além disso, ele não foca em "necessidades instintivas de sobrevivência", mas sim em um apego materialista que vai além disso.
- (B) Correta: A fala de Kopenawa ("As mercadorias deixam os brancos eufóricos e esfumaçam todo o resto em suas mentes [...] Seu pensamento está tão preso a elas, são de fato apaixonados por elas! [...] Os brancos não sonham tão longe quanto nós. Dormem muito, mas só sonham consigo mesmos") descreve claramente uma obsessão materialista, onde os sonhos e pensamentos dos brancos são dominados e reduzidos à posse e ao desejo de mercadorias.
- (C) Incorreta: Esta alternativa desvia o foco para a representação das culturas indígenas e a ideia de "criaturas supersticiosas". O registro de Kopenawa, no entanto, é sobre a cultura dos brancos, não sobre a sua própria ou a percepção de superstição.
- (D) Incorreta: A observação de Cioran é sobre a primeira impressão dos nativos sobre os europeus (como demônios/fantasmas). O registro de Kopenawa é uma análise mais aprofundada do comportamento e dos valores dos brancos (sua obsessão por mercadorias). Ambos são "contra-antropológicos" e complementares, não contraditórios. A armadilha aqui é confundir uma perspectiva diferente com uma contradição direta.
- (E) Incorreta: Esta alternativa descreve a visão dos brancos sobre as culturas primitivas, não a visão de Kopenawa sobre os brancos. O texto de Kopenawa é uma crítica à cultura branca, não uma reflexão sobre o que os brancos pensam das culturas indígenas.
Fonte: FCC MPMT 2019 Promotor de Justiça Substituto (Caderno Tipo 002). Reproduzida para fins de estudo.