Questão nº 4
Questão de Língua Portuguesa · FCC MPEPE 2018 (nº 4)
A família dos porquês
A lógica costuma definir três modalidades distintas no uso do termo "porque": o "porque" causal ("a jarra quebrou porque caiu"); o explicativo ("recusei o doce porque desejo emagrecer"); e o indicador de argumento ("volte logo, você sabe por quê"). Mas há outros aspectos que precisam ser considerados.
Imagine, por exemplo, que alguém inconformado com a morte de uma pessoa especialmente querida exclama: "Eu não consigo entender, isso não podia ter acontecido, por que não eu? Por que uma criatura tão jovem e cheia de vida morre assim?" Um médico solícito, se a ouvir nesse desabafo inconformado, poderá dizer-lhe: "Sinto muito pela perda, mas eu examinei o caso de sua filha e posso dizer-lhe o que houve: ela padecia de má-formação vascular e foi vítima da ruptura da artéria carótida que irriga o lobo temporal direito."
A explicação do médico é irretocável, mas seria a resposta ao "por quê" do pai inconsolável? Os porquês da ciência são por vezes rasos: mapas, registros e explicações cada vez mais precisas e minuciosas da superfície causal do que acontece. Eles excluem de antemão como ilegítimos os porquês que mais importam. O "porque" da ciência médica nem sequer arranha o "por quê" do pai desconsolado.
Está clara e correta a redação deste livre comentário sobre o texto:
- ANas considerações que faz, o autor releva a possibilidade de haver perguntas essenciais para as quais a ciência não está habilitada a responder de forma categórica. (alternativa correta)
- BPor razões categóricas, o autor acredita de que mesma as razões da ciência não é possível cobrir o âmbito das infatigáveis curiosidades humanas.
- CMesmo que não houvessem perguntas tão difíceis, acabaríamos por proferir indagações cujas a melhor ciência ainda assim não se preparou para responder convenientemente.
- DO fato de que cabe a ciência dar respostas às nossas aflições, isso não justifica de que ela não as tenha, ocasionalmente, em seu processo altamente expeculativo.
- EAs perguntas em que damos maior importância são também as mais difíceis, à medida em que nossa curiosidade avança por territórios em cuja exploração não somos capazes de levar à cabo.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
O texto discute a limitação da ciência em responder a perguntas existenciais ou de sentido, mesmo que ofereça explicações causais precisas. Ele mostra que os "porquês" da ciência são diferentes e, por vezes, insuficientes para os "porquês que mais importam" para o ser humano.
- (A) Correta: Esta alternativa capta perfeitamente a ideia central do texto. O autor releva (destaca, enfatiza) que existem perguntas essenciais (como as do pai desconsolado) para as quais a ciência, com sua abordagem causal e objetiva, não está habilitada a responder de forma categórica (não consegue dar uma resposta que satisfaça plenamente a profundidade da questão). Isso está alinhado com a frase "Os porquês da ciência são por vezes rasos" e "O 'porque' da ciência médica nem sequer arranha o 'por quê' do pai desconsolado."
- (B) Incorreta: Apresenta erros gramaticais e de regência. A construção "acredita de que mesma as razões da ciência não é possível cobrir" está incorreta. Deveria ser "acredita que nem mesmo as razões da ciência conseguem cobrir" ou "acredita que as razões da ciência não são capazes de cobrir". Além disso, a expressão "infatigáveis curiosidades humanas" não é o foco principal do texto, que se concentra na natureza das perguntas que a ciência não pode responder.
- (C) Incorreta: Contém erros gramaticais. "Mesmo que não houvessem perguntas" deveria ser "Mesmo que não houvesse perguntas" (concordância do verbo haver no singular, indicando existência). A expressão "cujas a melhor ciência" está incorreta; o correto seria "às quais a melhor ciência" ou "que a melhor ciência". A frase também distorce um pouco o sentido, pois o texto trata de perguntas difíceis que já existem.
- (D) Incorreta: Possui problemas de regência e clareza. A construção "O fato de que cabe a ciência... isso não justifica de que ela não as tenha" é redundante e incorreta; o correto seria "O fato de que cabe à ciência... não justifica que ela não as tenha". Além disso, o texto não afirma que "cabe à ciência dar respostas às nossas aflições" de forma absoluta, mas sim que ela não consegue dar respostas para certos tipos de aflições, o que é uma nuance diferente. O termo "expeculativo" é um erro de grafia para "especulativo".
- (E) Incorreta: Apresenta erros gramaticais e de sentido. "à medida em que" deve ser "à medida que". A expressão "em cuja exploração não somos capazes de levar à cabo" está incorreta; o correto é "levar a cabo" (sem crase). Além disso, o texto foca mais na limitação da ciência em responder, e não na nossa incapacidade de explorar territórios, embora as ideias possam estar relacionadas, a ênfase é diferente.
Fonte: FCC MPEPE 2018 Técnico Ministerial - Área Administrativa (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.