Questão nº 9

Questão de Língua Portuguesa · FCC MP-PB 2023 (nº 9)

FCC2023Técnico Ministerial - Sem EspecialidadeLíngua Portuguesa
Gabarito: Ever comentário ↓

Atenção: Leia o texto “Liberdade e necessidade ao revés”, de Eduardo Giannetti, para responder às questões de números 6 a 12.

“Por meios honestos se você conseguir, mas por quaisquer meios faça dinheiro”, preconiza — prenhe de sarcasmo — o verso de Horácio. Desespero, precisão ou cobiça, dentro ou fora da lei: o dinheiro nos incita a fazer o que de outro modo não faríamos. Suponha, entretanto, um súbito e imprevisto bafejo da fortuna — um prêmio lotérico, uma indenização milionária, uma inesperada herança. Quem continuaria a fazer o que faz para ganhar a vida caso não fosse mais necessário fazê-lo? Estamos acostumados a considerar o trabalho como algo a que nos sujeitamos, mais ou menos a contragosto, para obter uma renda — como um sacrifício ou necessidade imposta de fora; ao passo que o consumo é tomado como a esfera por excelência da livre escolha: o território sagrado para o exercício da nossa liberdade individual. A possibilidade de satisfazer, ainda que parcialmente, nossos desejos e fantasias de consumo se afigura como a merecida recompensa — ou suborno, diriam outros — capaz de atenuar a frustração e aliviar o aborrecimento de ocupações que de outro modo não teríamos e não nos dizem respeito.

Daí que, na feliz expressão do jovem Marx, “o trabalhador só se sente ele mesmo quando não está trabalhando; quando ele está trabalhando, ele não se sente ele mesmo”. Mas, se o mundo do trabalho está vedado às minhas escolhas e modo de ser; onde poderei expressar a minha individualidade? Impedido de ser quem sou no trabalho — escritório, chão de fábrica, call center, guichê, balcão —, extravaso a minha identidade no consumo — shopping, butique, salão, restaurante, showroom. Fonte de elã vital, o ritual da compra energiza e a posse ilumina a alma do consumidor. A compra de bens externos molda a identidade e acena com a promessa de distinção: ser notado, ser ouvido, ser tratado com simpatia, respeito e admiração pelos demais. Não o que faço, mas o que possuo — e, sobretudo, o que sonho algum dia ter — diz ao mundo quem sou. Servo impessoal no ganho, livre e soberano no gasto.

(Adaptado de: GIANNETTI, Eduardo. Trópicos utópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 2016)


O autor dirige-se explicitamente a seu leitor no seguinte trecho:

Este texto de apoio vale também pra questão nº 6, questão nº 7, questão nº 8, questão nº 10, questão nº 11, questão nº 12.

Resposta comentada

Gabarito Alternativa E

A interlocução autor-leitor é quando o autor se comunica diretamente com o leitor, convidando-o a participar da leitura, a refletir ou a imaginar algo. Geralmente, isso acontece com o uso de vocativos, pronomes de segunda pessoa (você, seu) ou verbos no imperativo.

  • A) Incorreta: Esta é uma afirmação geral sobre o comportamento do consumidor, sem se dirigir diretamente ao leitor.
  • B) Incorreta: Trata-se de uma constatação ou tese do autor sobre a identidade e o consumo, não uma fala direcionada ao leitor.
  • C) Incorreta: O uso de "minha" indica que o autor está falando de si mesmo ou de uma experiência generalizada que ele representa na primeira pessoa, não se dirigindo ao leitor. A armadilha é confundir a primeira pessoa do singular (eu) com uma interpelação direta ao "você" (leitor).
  • D) Incorreta: Esta é uma citação de Marx, apresentada como uma observação sobre o trabalhador (terceira pessoa), sem envolver o leitor diretamente.
  • E) Correta: O verbo "Suponha" está no modo imperativo, uma forma verbal que convida ou comanda o leitor a realizar uma ação mental (imaginar uma situação). Isso estabelece uma comunicação direta e explícita com o leitor.

Fonte: FCC MP-PB 2023 Técnico Ministerial - Sem Especialidade (Caderno Tipo 5). Reproduzida para fins de estudo.

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