Questão nº 11
Questão de Língua Portuguesa · FCC MP-PB 2023 (nº 11)
Atenção: Leia o texto “Liberdade e necessidade ao revés”, de Eduardo Giannetti, para responder às questões de números 6 a 12.
“Por meios honestos se você conseguir, mas por quaisquer meios faça dinheiro”, preconiza — prenhe de sarcasmo — o verso de Horácio. Desespero, precisão ou cobiça, dentro ou fora da lei: o dinheiro nos incita a fazer o que de outro modo não faríamos. Suponha, entretanto, um súbito e imprevisto bafejo da fortuna — um prêmio lotérico, uma indenização milionária, uma inesperada herança. Quem continuaria a fazer o que faz para ganhar a vida caso não fosse mais necessário fazê-lo? Estamos acostumados a considerar o trabalho como algo a que nos sujeitamos, mais ou menos a contragosto, para obter uma renda — como um sacrifício ou necessidade imposta de fora; ao passo que o consumo é tomado como a esfera por excelência da livre escolha: o território sagrado para o exercício da nossa liberdade individual. A possibilidade de satisfazer, ainda que parcialmente, nossos desejos e fantasias de consumo se afigura como a merecida recompensa — ou suborno, diriam outros — capaz de atenuar a frustração e aliviar o aborrecimento de ocupações que de outro modo não teríamos e não nos dizem respeito.
Daí que, na feliz expressão do jovem Marx, “o trabalhador só se sente ele mesmo quando não está trabalhando; quando ele está trabalhando, ele não se sente ele mesmo”. Mas, se o mundo do trabalho está vedado às minhas escolhas e modo de ser; onde poderei expressar a minha individualidade? Impedido de ser quem sou no trabalho — escritório, chão de fábrica, call center, guichê, balcão —, extravaso a minha identidade no consumo — shopping, butique, salão, restaurante, showroom. Fonte de elã vital, o ritual da compra energiza e a posse ilumina a alma do consumidor. A compra de bens externos molda a identidade e acena com a promessa de distinção: ser notado, ser ouvido, ser tratado com simpatia, respeito e admiração pelos demais. Não o que faço, mas o que possuo — e, sobretudo, o que sonho algum dia ter — diz ao mundo quem sou. Servo impessoal no ganho, livre e soberano no gasto.
(Adaptado de: GIANNETTI, Eduardo. Trópicos utópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 2016)
O termo sublinhado em “Estamos acostumados a considerar o trabalho como algo a que nos sujeitamos, mais ou menos a contragosto, para obter uma renda” (1º parágrafo) refere-se a
Este texto de apoio vale também pra questão nº 6, questão nº 7, questão nº 8, questão nº 9, questão nº 10, questão nº 12.
- Arenda.
- Bcontragosto.
- Cnos [pronome].
- Dnós [sujeito oculto de “sujeitamos”].
- Ealgo. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
Um pronome relativo (como "que") serve para retomar um termo já mencionado na frase (o antecedente), evitando repetição e conectando duas orações. Ele introduz uma oração subordinada que complementa o sentido do antecedente.
(A) Incorreta: "Renda" aparece depois do pronome "que" e não é o termo ao qual "nos sujeitamos".
(B) Incorreta: "Contragosto" é um advérbio ou expressão adverbial que indica modo, não um substantivo que possa ser o antecedente de "que". Não nos sujeitamos ao contragosto.
(C) Incorreta: "Nos" é um pronome oblíquo que se refere a "nós" (quem se sujeita), não ao "algo" a que nos sujeitamos.
(D) Incorreta: "Nós" é o sujeito oculto de "sujeitamos", mas o pronome relativo "que" (precedido pela preposição "a") retoma o objeto da ação de sujeitar-se, não o sujeito.
(E) Correta: O pronome "que" retoma o termo "algo". A oração pode ser reescrita como "nos sujeitamos a algo", onde "algo" é o complemento da preposição "a".
Fonte: FCC MP-PB 2023 Técnico Ministerial - Sem Especialidade (Caderno Tipo 5). Reproduzida para fins de estudo.