Questão nº 8
Questão de Língua Portuguesa · FCC MP-PB 2023 (nº 8)
Atenção: Leia o texto “Liberdade e necessidade ao revés”, de Eduardo Giannetti, para responder às questões de números 6 a 12.
“Por meios honestos se você conseguir, mas por quaisquer meios faça dinheiro”, preconiza — prenhe de sarcasmo — o verso de Horácio. Desespero, precisão ou cobiça, dentro ou fora da lei: o dinheiro nos incita a fazer o que de outro modo não faríamos. Suponha, entretanto, um súbito e imprevisto bafejo da fortuna — um prêmio lotérico, uma indenização milionária, uma inesperada herança. Quem continuaria a fazer o que faz para ganhar a vida caso não fosse mais necessário fazê-lo? Estamos acostumados a considerar o trabalho como algo a que nos sujeitamos, mais ou menos a contragosto, para obter uma renda — como um sacrifício ou necessidade imposta de fora; ao passo que o consumo é tomado como a esfera por excelência da livre escolha: o território sagrado para o exercício da nossa liberdade individual. A possibilidade de satisfazer, ainda que parcialmente, nossos desejos e fantasias de consumo se afigura como a merecida recompensa — ou suborno, diriam outros — capaz de atenuar a frustração e aliviar o aborrecimento de ocupações que de outro modo não teríamos e não nos dizem respeito.
Daí que, na feliz expressão do jovem Marx, “o trabalhador só se sente ele mesmo quando não está trabalhando; quando ele está trabalhando, ele não se sente ele mesmo”. Mas, se o mundo do trabalho está vedado às minhas escolhas e modo de ser; onde poderei expressar a minha individualidade? Impedido de ser quem sou no trabalho — escritório, chão de fábrica, call center, guichê, balcão —, extravaso a minha identidade no consumo — shopping, butique, salão, restaurante, showroom. Fonte de elã vital, o ritual da compra energiza e a posse ilumina a alma do consumidor. A compra de bens externos molda a identidade e acena com a promessa de distinção: ser notado, ser ouvido, ser tratado com simpatia, respeito e admiração pelos demais. Não o que faço, mas o que possuo — e, sobretudo, o que sonho algum dia ter — diz ao mundo quem sou. Servo impessoal no ganho, livre e soberano no gasto.
(Adaptado de: GIANNETTI, Eduardo. Trópicos utópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 2016)
No texto, o autor estabelece uma oposição entre
Este texto de apoio vale também pra questão nº 6, questão nº 7, questão nº 9, questão nº 10, questão nº 11, questão nº 12.
- Atrabalho e consumo. (alternativa correta)
- Btrabalho e sacrifício.
- Ccobiça e dinheiro.
- Dconsumo e liberdade.
- Esacrifício e frustração.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
O autor contrapõe duas esferas da vida: o trabalho, visto como obrigação, sacrifício e falta de liberdade, e o consumo, visto como espaço de livre escolha e expressão da identidade. Essa oposição é o eixo central do texto.
- (A) Correta: O texto opõe o trabalho (visto como "sacrifício" e "necessidade imposta") ao consumo (visto como "livre escolha" e expressão da identidade), como mostra a frase final: "Servo impessoal no ganho, livre e soberano no gasto".
- (B) Incorreta: Trabalho e sacrifício não são opostos no texto; o autor diz que o trabalho é como um sacrifício, ou seja, são sinônimos no contexto, não polos opostos.
- (C) Incorreta: Cobiça e dinheiro aparecem como motivações para agir, mas não são os dois elementos que o autor coloca em lados opostos na discussão central.
- (D) Incorreta: Consumo e liberdade são apresentados como aliados (o consumo é o território da liberdade), não como opostos. A armadilha aqui é inverter a relação: o consumo é a expressão da liberdade, não seu contrário.
- (E) Incorreta: Sacrifício e frustração são consequências ou sentimentos ligados ao trabalho, mas o texto não os coloca em oposição entre si; eles pertencem ao mesmo polo (o lado negativo do trabalho).
Fonte: FCC MP-PB 2023 Técnico Ministerial - Sem Especialidade (Caderno Tipo 5). Reproduzida para fins de estudo.