Questão nº 10
Questão de Língua Portuguesa · FCC MP-PB 2023 (nº 10)
Introdução
O verdadeiro título desta coletânea de ensaios que ora lhes apresento deveria ser o seu subtítulo, ou seja, Escritos ocasionais*. Apenas a justa preocupação do editor de que um título tão pomposamente modesto pudesse deixar de atrair a atenção do leitor, enquanto o do primeiro ensaio – “Construir o inimigo” – provocava alguns lances de curiosidade, fez com que a balança tendesse para a escolha final, que o leitor constata na capa.*
O que é um escrito ocasional e quais são suas virtudes? Em geral, significa que o autor realmente não planejava abordar aquele determinado assunto e foi levado a ele pelo convite para uma série de discussões ou ensaios sobre um determinado tema. O tema estimula o autor, induzindo-o a refletir a respeito de uma coisa que, do contrário, não teria chamado sua atenção – e, muitas vezes, um tema recebido por imposição externa resulta mais fecundo que outro nascido de algum capricho interior.
Outra virtude do escrito ocasional é que não obriga à originalidade a qualquer custo, mas visa antes a diversão, tanto de quem fala quanto de quem ouve. Em suma, o escrito ocasional é um exercício rebuscado de retórica, como quando aquela heroína de uma peça teatral famosa impõe a seu amado desafios do tipo "fale-me do amor" – e esperava que ali se improvisasse algum tratado sobre a profundidade desse sentimento.
No rodapé de cada um dos textos que compõem este livro registro a data e a ocasião em que foi divulgado, apenas para sublinhar sua condição de ocasional. Naquele que intitulei "Absoluto e relativo", por exemplo, lembro que falar do absoluto nos anos em que a polêmica sobre o relativismo estava explodindo foi uma experiência deveras interessante. Mas jamais tinha passado pela minha cabeça discorrer sobre tal assunto.
(Adaptado de: ECO, Umberto. Construir o inimigo e outros escritos ocasionais. Rio de Janeiro-São Paulo: Record, 2021, p. 7)
Apenas a preocupação do editor de que esse título pudesse deixar de atrair a atenção do leitor, enquanto o do primeiro ensaio provocava curiosidade, fez com que a balança tendesse para a escolha final.
Na frase acima, a correlação entre os tempos verbais continuará adequada caso se substituam os elementos sublinhados, na ordem dada, por:
Atenção: Para responder às questões de números 11 a 15, baseie-se no texto abaixo.
- Apoderia deixar → provocaria → terá feito a balança tender (alternativa correta)
- Bpossa ter deixado → provocasse → fará com que a balança tenda
- Cpoderá deixar → provocara → faria com que a balança tenderia
- Dpudesse ter deixado → terá provocado → faz com que a balança tenda
- Epode deixar → teria provocado → terá feito com que a balança tendeu
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
A correlação verbal é a relação de harmonia entre os tempos e modos dos verbos em um período, garantindo que a sequência de ações e ideias seja lógica e gramaticalmente coerente. Ela estabelece a dependência temporal entre as orações.
(A) Correta: A substituição "poderia deixar", "provocaria" e "terá feito a balança tender" mantém a correlação verbal adequada. "Poderia deixar" e "provocaria" (ambos Futuro do Pretérito do Indicativo) expressam possibilidades ou hipóteses no passado. "Terá feito a balança tender" (Futuro do Presente Composto do Indicativo) pode ser interpretado como uma probabilidade no passado (equivalente a "deve ter feito a balança tender"), correlacionando-se logicamente com as hipóteses anteriores para indicar um resultado provável.
(B) Incorreta: "Provocasse" (Pretérito Imperfeito do Subjuntivo) altera o sentido de descrição de uma ação passada ("provocava") para uma condição ou possibilidade, e "fará com que a balança tenda" (Futuro do Presente) desloca a ação principal para o futuro, quebrando a sequência temporal com os verbos anteriores de sentido passado/hipotético.
(C) Incorreta: "Poderá deixar" (Futuro do Presente) não se correlaciona com o contexto passado da preocupação. Além disso, "faria com que a balança tenderia" apresenta uma redundância de condicional ("faria" e "tenderia"), sendo gramaticalmente incorreto.
(D) Incorreta: Embora "pudesse ter deixado" e "terá provocado" possam ter correlação de sentido passado/hipotético, "faz com que a balança tenda" (Presente do Indicativo + Presente do Subjuntivo) introduz uma ação no presente, quebrando a coerência temporal com os verbos anteriores, que se referem a um contexto passado. Esta é a armadilha da banca, pois a mudança para o presente na oração principal desfaz a correlação com as ações passadas ou hipotéticas expressas pelos verbos anteriores.
(E) Incorreta: "Pode deixar" (Presente do Indicativo) não se correlaciona com o contexto passado. A construção "terá feito com que a balança tendeu" é gramaticalmente incorreta, pois "terá feito com que" exige um verbo no subjuntivo (ex: "tendesse" ou "tenda"), e não no Pretérito Perfeito do Indicativo ("tendeu").
Fonte: FCC MP-PB 2023 Conhecimentos Comuns (Analista) (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.