Questão nº 5
Questão de Língua Portuguesa · FCC MP-PB 2023 (nº 5)
Em torno dos sonhos
A palavra sonho, do latim somnium, significa muitas coisas diferentes, todas vivenciadas durante a vigília, e não durante o sono. Realizei o "sonho da minha vida", "meu sonho de consumo" são expressões usadas cotidianamente pelas pessoas para dizer que pretendem ou conseguiram alcançar algo. Por que será que o sonho, fenômeno normalmente noturno que tanto pode evocar o prazer quanto o medo, é justamente a palavra usada para designar tudo aquilo a que se aspira?
O repertório publicitário contemporâneo não tem dúvida de que o sonho é a força motriz de nossos comportamentos, a motivação íntima de nossa ação exterior. Num anúncio de cartão de crédito, a promessa milagrosa: "Realizamos todos os seus sonhos". Em outro anúncio de cartão de crédito, uma foto enorme de um casal sorridente, velejando num mar caribenho em dia ensolarado, está sobre a frase "Aonde os seus sonhos o levarão?" Deduz-se do anúncio de que os sonhos são como veleiros, capazes de levar-nos a lugares idílicos, perfeitos, altamente... desejáveis. As equações "sonho é igual a desejo que é igual a dinheiro" têm como variável oculta a liberdade de ir, ser e principalmente ter, liberdade que até os mais miseráveis podem experimentar no sonho noturno, mas que no sonho diurno é privilégio apenas dos detentores de um mágico cartão de plástico.
No seu famoso discurso “I have a dream” ("eu tenho um sonho"), o reverendo Martin Luther King colocou no centro do debate político norte-americano a necessidade de justiça e integração racial. Num país construído por escravos africanos, seus descendentes eram obrigados a construir o "sonho americano", mas proibido de fruí-lo. Prêmio Nobel da paz em 1964, o dr. King foi assassinado a tiros quatro anos depois. Morreu o reverendo lutador, mas não o sonho, que vicejou e progressivamente abriu espaço para a diminuição da desigualdade racial no país. Força poderosa a dos sonhos, que continua a requerer explicação.
(Adaptado de: RIBEIRO, Sidarta. O oráculo da noite. A história e a ciência do sonho. São Paulo: Companhia das Letras, 2019, p, 19-20)
As normas de concordância verbal estão plenamente observadas na frase:
Atenção: Para responder às questões de números 6 a 10, baseie-se no texto abaixo.
- AAo se tratar dos sonhos não se avaliam sempre os traços da dimensão negativa dos sentimentos que neles podem se representar. (alternativa correta)
- BPara os publicitários não convêm se valer dos sonhos confusos, mas daqueles que o mercado financeiro costumam explorar.
- CAonde poderá levar um sonhador ingênuo os veleiros maliciosamente plantados pela publicidade senão a um paraíso enganoso?
- DNão poderia deixar de existir sonhos tão altos como os de Martin Luther King, em face dos desafios para quem se indispõem contra o racismo.
- ECouberam aos escravos africanos e seus descendentes a tarefa gigantesca de trabalhar para construir uma nação que lhes negou direitos básicos.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
Concordância Verbal é a regra gramatical que exige que o verbo (a ação) mude sua forma para combinar em número (singular ou plural) e pessoa (eu, tu, ele/ela, nós, vós, eles/elas) com o seu sujeito (quem pratica ou sofre a ação).
(A) Correta: A frase está plenamente de acordo com as normas de concordância verbal.
- "Ao se tratar dos sonhos": O verbo "tratar" está no singular, pois o "se" aqui indica sujeito indeterminado, e o verbo permanece na 3ª pessoa do singular.
- "não se avaliam sempre os traços": O sujeito de "avaliam" é "os traços da dimensão negativa", que está no plural, e o verbo "avaliam" também está no plural, concordando corretamente.
- "que neles podem se representar": O sujeito de "podem se representar" é "os sentimentos" (referente ao "que"), que está no plural, e o verbo "podem" está no plural, concordando corretamente.
(B) Incorreta: Há erros de concordância em "não convêm se valer" (o sujeito é a oração "se valer dos sonhos", que é singular, portanto, o correto seria "não convém") e em "o mercado financeiro costumam explorar" (o sujeito "o mercado financeiro" é singular, portanto, o correto seria "costuma").
(C) Incorreta: O sujeito de "poderá levar" é "os veleiros" (plural), que está posposto ao verbo. Assim, o verbo deveria estar no plural: "Aonde poderão levar um sonhador ingênuo os veleiros...".
(D) Incorreta: Há erros de concordância em "Não poderia deixar de existir sonhos" (o sujeito de "existir" é "sonhos", que é plural, portanto, o verbo auxiliar deveria ser "Não poderiam deixar de existir") e em "para quem se indispõem" (o pronome "quem" geralmente exige o verbo na 3ª pessoa do singular, portanto, "se indispõe").
(E) Incorreta: O sujeito do verbo "Couberam" é "a tarefa gigantesca" (singular), que está posposto. O verbo deve concordar com o sujeito, portanto, o correto seria "Coube aos escravos africanos e seus descendentes a tarefa...". Armadilha da banca: O erro aqui é comum, pois o plural "aos escravos africanos e seus descendentes" (objeto indireto) pode levar o leitor a concordar o verbo no plural, ignorando que o sujeito ("a tarefa") é singular.
Fonte: FCC MP-PB 2023 Conhecimentos Comuns (Analista) (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.