Questão nº 9

Questão de Língua Portuguesa · FCC DPE-RS 2018 (nº 9)

FCC2018Defensor Público do EstadoLíngua Portuguesa
Gabarito: Aver comentário ↓

Atenção: Leia o texto abaixo para responder às questões de número 1 a 12.

Tomando resolutamente a sério as narrativas dos "selvagens", a análise estrutural nos ensina, já há alguns anos, que tais
narrativas são precisamente muito sérias e que nelas se articula um sistema de interrogações que elevam o pensamento mítico ao
plano do pensamento propriamente dito. Sabendo a partir de agora, graças às Mitológicas*, de Claude Lévi-Strauss, que os mitos não*
falam para nada dizerem, eles adquirem a nossos olhos um novo prestígio; e, certamente, investi-los assim de tal gravidade não é
atribuir-lhes demasiada honra.

Talvez, entretanto, o interesse muito recente que suscitam os mitos corra o risco de nos levar a tomá-los muito "a sério" desta
vez e, por assim dizer, a avaliar mal sua dimensão de pensamento. Se, em suma, deixássemos na sombra seus aspectos mais
acentuados, veríamos difundir-se uma espécie de mitomania esquecida de um traço todavia comum a muitos mitos, e não exclusivo
de sua gravidade: o seu humor.

Não menos sérios para os que narram (os índios, por exemplo) do que para os que os recolhem ou leem, os mitos podem,
entretanto, desenvolver uma intensa impressão de cômico; eles desempenham às vezes a função explícita de divertir os ouvintes, de
desencadear sua hilaridade. Se estamos preocupados em preservar integralmente a verdade dos mitos, não devemos subestimar o
alcance real do riso que eles provocam e considerar que um mito pode ao mesmo tempo falar de coisas solenes e fazer rir aqueles
que o escutam.

A vida cotidiana dos "primitivos", apesar de sua dureza, não se desenvolve sempre sob o signo do esforço ou da inquietude;
também eles sabem propiciar-se verdadeiros momentos de distensão, e seu senso agudo do ridículo os faz várias vezes caçoar de
seus próprios temores. Ora, não raro essas culturas confiam a seus mitos a tarefa de distrair os homens, desdramatizando, de certa
forma, sua existência.

Essas narrativas, ora burlescas, ora libertinas, mas nem por isso desprovidas de alguma poesia, são bem conhecidas de todos
os membros da tribo, jovens e velhos; mas, quando eles têm vontade de rir realmente, pedem a algum velho versado no saber
tradicional para contá-las mais uma vez. O efeito nunca se desmente: os sorrisos do início passam a cacarejos mal reprimidos, o riso
explode em francas gargalhadas que acabam transformando-se em uivos de alegria.

(Adaptado de: CLASTRES, Pierre. A Sociedade contra o Estado. São Paulo, Ubu, 2017)


Essas narrativas, ora burlescas, ora libertinas, mas nem por isso desprovidas de alguma poesia, são bem conhecidas de todos os membros da tribo, jovens e velhos... (último parágrafo)

Uma redação alternativa para o segmento acima, em que se mantêm a correção e, em linhas gerais, o sentido original, encontra-se em:

Resposta comentada

Gabarito Alternativa A

Reescrita e equivalência sintática é a capacidade de expressar a mesma ideia de uma frase de diferentes maneiras, mantendo o sentido original e a correção gramatical, alterando a estrutura ou a ordem dos termos. O objetivo é encontrar a alternativa que preserve integralmente a informação e a relação lógica entre as partes da frase original.

(A) Correta: Esta alternativa mantém o sentido original. "Bem conhecidas por todos na tribo, sem distinção de idade" refraseia "são bem conhecidas de todos os membros da tribo, jovens e velhos". A expressão "não obstante sejam elas jocosas ou libertinas" (apesar de serem jocosas ou libertinas) preserva a ideia de concessão de "ora burlescas, ora libertinas, mas nem por isso". E "guardam um matiz poético" é equivalente a "nem por isso desprovidas de alguma poesia".
(B) Incorreta: A colocação de "tanto as burlescas como as libertinas" ao final da concessão ("não obstante, mantenham um caráter poético") altera a relação lógica, dando a entender que a concessão se refere ao fato de ambos os tipos manterem o caráter poético, em vez de o caráter poético existir apesar de serem burlescas ou libertinas.
(C) Incorreta: A conjunção "desde que" (condição) muda drasticamente o sentido da frase original, que expressa uma concessão (apesar de, não obstante). A frase original afirma que as narrativas não são desprovidas de poesia, enquanto esta alternativa impõe uma condição para que sejam conhecidas ("desde que guardem um tom poético"). Essa é a armadilha mais tentadora, pois "desde que" é uma conjunção comum, mas com sentido diferente.
(D) Incorreta: A expressão "Mesmo que desprovidas de caráter poético" contradiz diretamente o sentido original, que afirma que as narrativas não são desprovidas de poesia ("mas nem por isso desprovidas de alguma poesia").
(E) Incorreta: A construção "nem que sejam por isso libertinas ou burlescas, pois que conservam um caráter poético" altera as relações de causa e concessão. O "pois que" introduz uma causa para serem conhecidas, e o "nem que por isso" é ambíguo e não reflete a concessão original de forma precisa.

Fonte: FCC DPE-RS 2018 Defensor Público do Estado (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.

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