Questão nº 17

Questão de Língua Portuguesa · FCC DPE-RS 2018 (nº 17)

FCC2018Defensor Público do EstadoLíngua Portuguesa
Gabarito: Aver comentário ↓

Atenção: Leia o texto abaixo para responder às questões de número 14 a 18.

O pintor Carlos Scliar atinge no momento presente uma serenidade que é característica simples e pura de um artista sem
ansiedades e sem inquietações, serenidade que esteve sempre presente num José Pancetti e que permanece também unanimemente
na obra de um Milton Dacosta, de um Guignard ou Iberê Camargo, serenidade que é uma espécie de densidade, de conteúdo
irredutível e inalienável, símbolo de uma fatalidade e de uma vontade de arte que deixa de ser esforço para ser personalidade e
natureza.

Na hora exata em que os pintores, na sua maioria, se comprazem com o exame tão só das derivações da cor, a apreciação de
um pintor que leva as suas indagações mais além, isto é, às derivações da luz, da semelhança, das formas objetiva ou indeterminada
merece ser meditada dentro de uma avaliação mais detida e menos sumária.

Scliar faz parte do número desses artistas que não dão à ocupação com as artes um sentido partidário, não é "concretista",
nem "figurista", nem "geométrico", nem "informal", quero crer que também em sua vida habitual não torce pelo Flamengo ou pelo
Vasco, e sendo assim apartidário é bem o exemplo daquele pintor que leva as suas indagações além da fixação das diferenciações de
um único atributo da pintura. Diz Ortega y Gasset, com boa parte de verdade, que o homem é uma máquina de preferir; apenas com
boa parte de verdade, digo eu, porque esta preferência não é constante e imutável, mas sofre incessantemente as flutuações do
desejo, da esperança e da curiosidade.

A insistência numa única e determinada coisa preferida revela um espírito de ascese e solidão, de hermetismo e alheamento
que se distancia da vidae a maior parte da pintura moderna se distancia da vida! Por isso o pintor Carlos Scliar, revalorizando
certas qualidades estéticas, fazendo novamente e humanamente respeitar os valores da exatidão, da virtuosidade e da dificuldade,
procura reintegrar a pintura na sua totalidade e na sua grandeza. Procura reintegrá-la numa verdade da qual nunca se afastou,
podemos afirmar, a arte musical, tantas vezes tomada como exemplo ou paradigma para as outras artes.

As preferências de Scliar, entretanto, não fogem de ser limitadas apenas nesses valores específicos e abstratos, também se
realizam em termos mais genéricos: na natureza-morta, na paisagem, no retrato. As variações de cor, de luz, de tonalidades das suas
naturezas-mortas demonstram uma intimidade com os objetos, uma variável constância, uma assiduidade, uma vigília; os seres
prediletos dos seus quadros de natureza-morta dão a impressão de que estão velando, de que estão assistindo ao pintor no trabalho e
no cuidado da obra elaborada, estão ali prestando-lhe o conforto da sua utilidade, trazendo-lhe a evidência do seu mutismo e
docilidade, confiando-lhe, silenciosamente, os segredos de Morandi.

(CARDOZO, J. "Carlos Scliar", Habitat, SP, 1961)


... esta preferência não é constante e imutável, mas sofre incessantemente as flutuações do desejo... (3º parágrafo)

A redação em que se atenua a oposição acima encontra-se em:

Este texto de apoio vale também pra questão nº 14, questão nº 15, questão nº 16, questão nº 18.

Resposta comentada

Gabarito Alternativa A

Para atenuar uma oposição, usamos conjunções concessivas, que expressam uma ideia que, embora possa parecer contrária à principal, não impede a sua realização. A conjunção "mas" na frase original indica uma oposição direta e forte.

  • (A) Correta: A conjunção "embora" introduz uma oração subordinada adverbial concessiva. Ela suaviza a oposição expressa pelo "mas", indicando que, apesar de a preferência sofrer flutuações, ela ainda assim não é constante e imutável. Isso atenua o contraste, transformando-o em uma concessão.
  • (B) Incorreta: "Para que" é uma conjunção final, indicando propósito. A frase passaria a significar que o sofrimento das flutuações é a finalidade para que a preferência não seja constante e imutável, alterando completamente o sentido original de oposição.
  • (C) Incorreta: "Como" aqui, seguido de subjuntivo, introduz uma oração causal ou explicativa ("já que é constante e imutável"). Isso cria uma contradição lógica com a primeira parte da frase original ("não é constante e imutável") e muda o sentido para causa, não para oposição atenuada.
  • (D) Incorreta: "Desde que" pode ser causal ("já que") ou condicional ("contanto que"). Em ambos os casos, a frase estabeleceria uma relação de causa ou condição, e não de oposição atenuada. Por exemplo, "não é constante e imutável se e somente se sofrer flutuações", o que não corresponde ao sentido original.
  • (E) Incorreta: "Na medida em que" é uma locução conjuntiva causal ou proporcional. Além disso, a alternativa altera "não é constante e imutável" para "é inconstante e imutável", que é uma formulação ambígua e logicamente falha (algo inconstante não pode ser imutável ao mesmo tempo). A frase estabeleceria uma relação de causa ou proporção, não de oposição atenuada.

Fonte: FCC DPE-RS 2018 Defensor Público do Estado (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.

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