Questão nº 7
Questão de Língua Portuguesa · FCC DPE-AM 2023 (nº 7)
[Rubem Braga, cronista maior]
Desde que surgiu para a literatura na década de 30, Rubem Braga nos encanta com suas histórias. Ao longo dos anos, em meio às atribulações do dia a dia, o leitor brasileiro se habituou a esperar, em certos jornais e revistas, os dois dedos de prosa com que o "velho Braga" o prendia inapelavelmente. O assunto podia ser escasso ou faltar, mas o encantamento se fazia assim mesmo. De repente, naquela linguagem volátil, o leitor se encontrava terra a terra com a poesia do cotidiano.
Sem dúvida, tratava-se de um cronista, de um narrador e comentarista dos fatos corriqueiros de todo dia, mas algo ali transfigurava a crônica, dando-lhe uma consistência literária que ela jamais tivera. Era um escritor diferente, pois havia escolhido um espaço diverso de criação: o espaço dominado pela informação jornalística. E, novo paradoxo, parecia discrepar naquele meio moderno da informação, como se o que trazia para expressar fosse inteiramente incompatível com o jornal.
É que aquele cronista trazia algo escasso nos tempos atuais: a sua própria experiência. Uma experiência particular, densa e complexa, inusitada para o tempo e o lugar, mas capaz de se transmitir a muitos que nela se reconheciam, permeáveis ao que havia ali de comum e solidário. Uma experiência que se transmitia por histórias, pela arte do narrador, que parecia vir de outros tempos e retomar o fio da tradição oral, tão importante no Brasil.
Desde o princípio, deve ter sido difícil definir com precisão o que eram aquelas crônicas. Pareciam esconder muita complexidade sob a capa límpida da naturalidade. Disfarçavam a arte da escrita numa prosa divagadora de quem conversa sem rumo certo, distraído com o balanço da rede, passando o tempo, como que para se livrar do ócio ou do tédio. E, no entanto, era uma prosa cheia de achados de linguagem, um vocabulário escolhido a dedo para o lugar certo. Eram frases em geral curtas, com preferência pelas orações coordenadas, sem temer, porém curvas e enlaces dos períodos mais longos e complicados. Uma sintaxe, enfim, leve e flexível, próxima da linguagem coloquial.
Num mundo como o nosso, já bastante automatizado, onde tudo pode virar mercadoria e em si nada valer, o velho Braga, em meio às coisas mais efêmeras, não apenas nos dá a impressão súbita do momento fugitivo de uma alta beleza presente no cotidiano, mas também a dignidade e a poesia do perecível, quando tocada por um dedo humano.
(Adaptado de: ARRIGUCCI JR., Davi. "Braga de novo por aqui". In: BRAGA, Rubem. Os melhores contos. São Paulo: Global, 1977)
As normas de concordância verbal encontram-se plenamente observadas na frase:
- AÀs histórias que fazem parte da nossa tradição oral, tão importante em nosso país, não se atribuem o valor que se lhes deveriam reconhecer.
- BA automatização de todos os elementos que constituem as experiências modernas constituem um desafio para aqueles a quem cabem contestá-las.
- CPreservam-se nas histórias de Rubem Braga o encantamento das coisas complexas que surgem com misteriosa simplicidade.
- DEntre os efeitos dessas crônicas inesquecíveis estariam, sem sombra de dúvida, a sedução de suas frases poéticas e bem coordenadas.
- EA certeza de que essas crônicas aparentemente simples são de fato bastante densas pode comprovar-se quando se analisa qualquer uma delas. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
A concordância verbal é a regra que exige que o verbo (a ação) mude sua forma para combinar em número (singular ou plural) e pessoa (eu, tu, ele/ela, nós, vós, eles/elas) com o seu sujeito (quem pratica ou sofre a ação).
- A) Incorreta: O sujeito de "atribuem" e "deveriam reconhecer" é "o valor" (singular). O correto seria "não se atribui o valor que se lhe deveria reconhecer". A presença de "se" com um sujeito paciente no singular exige o verbo no singular. Armadilha: A frase "Às histórias" (plural) no início pode confundir, mas é um complemento, não o sujeito. Além disso, a estrutura "verbo + se + substantivo" (ex: "atribuem-se valores") frequentemente indica voz passiva sintética, onde o substantivo ("o valor") é o sujeito paciente e deve concordar com o verbo.
- B) Incorreta: O sujeito do segundo "constituem" é "A automatização" (singular), então o correto seria "constitui". O sujeito de "cabem" é a oração "contestá-las" (oração substantiva), que exige o verbo no singular, portanto "cabe".
- C) Incorreta: O sujeito de "Preservam-se" é "o encantamento" (singular). O correto seria "Preserva-se nas histórias de Rubem Braga o encantamento...".
- D) Incorreta: O sujeito de "estariam" é "a sedução" (singular), que aparece após o verbo (sujeito posposto). O correto seria "Entre os efeitos... estaria... a sedução...".
- (E) Correta: Todos os verbos concordam corretamente com seus respectivos sujeitos. "são" concorda com "crônicas" (plural); "pode comprovar-se" concorda com "A certeza" (singular, núcleo do sujeito); e "analisa" está na 3ª pessoa do singular, como exige o "se" índice de indeterminação do sujeito.
Fonte: FCC DPE-AM 2023 Analista Jurídico de Defensoria - Especialidade Ciências Jurídicas (Caderno Tipo 005). Reproduzida para fins de estudo.