Questão nº 2
Questão de Língua Portuguesa · FCC DPE-AM 2023 (nº 2)
[Rubem Braga, cronista maior]
Desde que surgiu para a literatura na década de 30, Rubem Braga nos encanta com suas histórias. Ao longo dos anos, em meio às atribulações do dia a dia, o leitor brasileiro se habituou a esperar, em certos jornais e revistas, os dois dedos de prosa com que o "velho Braga" o prendia inapelavelmente. O assunto podia ser escasso ou faltar, mas o encantamento se fazia assim mesmo. De repente, naquela linguagem volátil, o leitor se encontrava terra a terra com a poesia do cotidiano.
Sem dúvida, tratava-se de um cronista, de um narrador e comentarista dos fatos corriqueiros de todo dia, mas algo ali transfigurava a crônica, dando-lhe uma consistência literária que ela jamais tivera. Era um escritor diferente, pois havia escolhido um espaço diverso de criação: o espaço dominado pela informação jornalística. E, novo paradoxo, parecia discrepar naquele meio moderno da informação, como se o que trazia para expressar fosse inteiramente incompatível com o jornal.
É que aquele cronista trazia algo escasso nos tempos atuais: a sua própria experiência. Uma experiência particular, densa e complexa, inusitada para o tempo e o lugar, mas capaz de se transmitir a muitos que nela se reconheciam, permeáveis ao que havia ali de comum e solidário. Uma experiência que se transmitia por histórias, pela arte do narrador, que parecia vir de outros tempos e retomar o fio da tradição oral, tão importante no Brasil.
Desde o princípio, deve ter sido difícil definir com precisão o que eram aquelas crônicas. Pareciam esconder muita complexidade sob a capa límpida da naturalidade. Disfarçavam a arte da escrita numa prosa divagadora de quem conversa sem rumo certo, distraído com o balanço da rede, passando o tempo, como que para se livrar do ócio ou do tédio. E, no entanto, era uma prosa cheia de achados de linguagem, um vocabulário escolhido a dedo para o lugar certo. Eram frases em geral curtas, com preferência pelas orações coordenadas, sem temer, porém curvas e enlaces dos períodos mais longos e complicados. Uma sintaxe, enfim, leve e flexível, próxima da linguagem coloquial.
Num mundo como o nosso, já bastante automatizado, onde tudo pode virar mercadoria e em si nada valer, o velho Braga, em meio às coisas mais efêmeras, não apenas nos dá a impressão súbita do momento fugitivo de uma alta beleza presente no cotidiano, mas também a dignidade e a poesia do perecível, quando tocada por um dedo humano.
(Adaptado de: ARRIGUCCI JR., Davi. "Braga de novo por aqui". In: BRAGA, Rubem. Os melhores contos. São Paulo: Global, 1977)
Analisando-se a estruturação do texto em seus cinco parágrafos, observa-se que o
- Aquarto demonstra que a força da linguagem de Rubem Braga está no modo singularmente solto e natural com que ele domina e coordena suas frases. (alternativa correta)
- Bquinto faz concluir que nem sempre um bom cronista sabe despertar o interesse de seu leitor para o cotidiano automatizado em que vivemos todos.
- Cprimeiro situa os antecedentes históricos do gênero a que se dedicou Rubem Braga, destacando a importância da tradição a que se prende esse escritor.
- Dsegundo acentua a compreensão do cronista em entender o meio de comunicação de que se ocupa, adequando-se às características do melhor estilo jornalístico.
- Eterceiro dá conta das fontes que fornecem assunto ao grande cronista, apoiando-se ele nos relatos épicos da literatura clássica, cujo estilo absorve.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
A estruturação textual refere-se à forma como as ideias são organizadas e desenvolvidas em cada parágrafo de um texto, revelando a função de cada parte na construção do sentido global.
(A) Correta: O quarto parágrafo descreve detalhadamente o estilo de escrita de Rubem Braga, mencionando a "naturalidade", a "prosa divagadora", os "achados de linguagem", o "vocabulário escolhido a dedo", as "frases em geral curtas, com preferência pelas orações coordenadas" e a "sintaxe... leve e flexível, próxima da linguagem coloquial". Tudo isso demonstra a força de sua linguagem, que é ao mesmo tempo solta e natural, mas também dominada e coordenada com maestria.
(B) Incorreta: O quinto parágrafo afirma o oposto, que Rubem Braga "não apenas nos dá a impressão súbita do momento fugitivo de uma alta beleza presente no cotidiano, mas também a dignidade e a poesia do perecível", ou seja, ele consegue despertar o interesse e revelar a beleza no cotidiano automatizado.
(C) Incorreta: O primeiro parágrafo introduz Rubem Braga e seu impacto nos leitores desde a década de 30, mas não situa os antecedentes históricos do gênero crônica nem destaca uma tradição específica à qual ele se prende. A ideia de "tradição oral" aparece no terceiro parágrafo.
(D) Incorreta: O segundo parágrafo explica que Rubem Braga "transfigurava a crônica" e "parecia discrepar naquele meio moderno da informação", indicando que ele não se adequava ao estilo jornalístico convencional, mas sim o transformava ou se diferenciava dele.
(E) Incorreta: O terceiro parágrafo informa que a fonte de Rubem Braga era "a sua própria experiência" e a "tradição oral", e não "relatos épicos da literatura clássica". A armadilha aqui é confundir a "arte do narrador" com a absorção de estilos clássicos, quando o texto aponta para a experiência pessoal e a tradição oral.
Fonte: FCC DPE-AM 2023 Analista Jurídico de Defensoria - Especialidade Ciências Jurídicas (Caderno Tipo 005). Reproduzida para fins de estudo.