Questão nº 6
Questão de Língua Portuguesa · FCC DPE-AM 2023 (nº 6)
[Rubem Braga, cronista maior]
Desde que surgiu para a literatura na década de 30, Rubem Braga nos encanta com suas histórias. Ao longo dos anos, em meio às atribulações do dia a dia, o leitor brasileiro se habituou a esperar, em certos jornais e revistas, os dois dedos de prosa com que o "velho Braga" o prendia inapelavelmente. O assunto podia ser escasso ou faltar, mas o encantamento se fazia assim mesmo. De repente, naquela linguagem volátil, o leitor se encontrava terra a terra com a poesia do cotidiano.
Sem dúvida, tratava-se de um cronista, de um narrador e comentarista dos fatos corriqueiros de todo dia, mas algo ali transfigurava a crônica, dando-lhe uma consistência literária que ela jamais tivera. Era um escritor diferente, pois havia escolhido um espaço diverso de criação: o espaço dominado pela informação jornalística. E, novo paradoxo, parecia discrepar naquele meio moderno da informação, como se o que trazia para expressar fosse inteiramente incompatível com o jornal.
É que aquele cronista trazia algo escasso nos tempos atuais: a sua própria experiência. Uma experiência particular, densa e complexa, inusitada para o tempo e o lugar, mas capaz de se transmitir a muitos que nela se reconheciam, permeáveis ao que havia ali de comum e solidário. Uma experiência que se transmitia por histórias, pela arte do narrador, que parecia vir de outros tempos e retomar o fio da tradição oral, tão importante no Brasil.
Desde o princípio, deve ter sido difícil definir com precisão o que eram aquelas crônicas. Pareciam esconder muita complexidade sob a capa límpida da naturalidade. Disfarçavam a arte da escrita numa prosa divagadora de quem conversa sem rumo certo, distraído com o balanço da rede, passando o tempo, como que para se livrar do ócio ou do tédio. E, no entanto, era uma prosa cheia de achados de linguagem, um vocabulário escolhido a dedo para o lugar certo. Eram frases em geral curtas, com preferência pelas orações coordenadas, sem temer, porém curvas e enlaces dos períodos mais longos e complicados. Uma sintaxe, enfim, leve e flexível, próxima da linguagem coloquial.
Num mundo como o nosso, já bastante automatizado, onde tudo pode virar mercadoria e em si nada valer, o velho Braga, em meio às coisas mais efêmeras, não apenas nos dá a impressão súbita do momento fugitivo de uma alta beleza presente no cotidiano, mas também a dignidade e a poesia do perecível, quando tocada por um dedo humano.
(Adaptado de: ARRIGUCCI JR., Davi. "Braga de novo por aqui". In: BRAGA, Rubem. Os melhores contos. São Paulo: Global, 1977)
O texto acusa, repetidamente, algo de paradoxal que está nas crônicas de Rubem Braga: elas
- Aocupam um espaço jornalístico para que as notícias mais importantes do dia se traduzam numa linguagem de valor indiscutivelmente literário.
- Bconvencem o leitor de que a pobreza de seu cotidiano pode transfigurar-se em riqueza, caso ele venha a dominar os meios expressivos de sua língua.
- Cse valem de uma linguagem artística extremamente elaborada, embora o cronista não despreze as narrativas simplórias que fazem parte da nossa tradição.
- Dse apoiam numa prosa aparentemente solta e descompromissada, enquanto absorvem o leitor nas experiências de alta densidade que sabem comunicar. (alternativa correta)
- Ealcançam um estilo de ilusória naturalidade, por meio das falas populares que sabem absorver e imitar para poder melhor seduzir seus leitores.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
Um paradoxo é uma ideia ou situação que, à primeira vista, parece contraditória ou sem sentido, mas que, ao ser analisada mais profundamente, revela uma verdade ou um significado. No caso de Rubem Braga, o texto destaca a contradição entre a simplicidade aparente de sua escrita e a complexidade e profundidade que ela realmente possuía.
(A) Incorreta: O texto menciona que ele ocupava um espaço jornalístico, mas o paradoxo não é que ele traduzia notícias mais importantes para linguagem literária; pelo contrário, ele transfigurava "fatos corriqueiros" e o "assunto podia ser escasso ou faltar".
(B) Incorreta: Embora as crônicas de Braga revelem a poesia do cotidiano, o paradoxo apontado não é que o leitor possa transformar a pobreza em riqueza dominando a língua, mas sim a natureza da escrita do próprio cronista.
(C) Incorreta: O texto de fato fala de linguagem elaborada ("achados de linguagem") e da tradição oral, mas o paradoxo não é a mera coexistência, e sim como a elaboração se escondia sob a capa da naturalidade, o que esta alternativa não expressa.
(D) Correta: Esta alternativa capta perfeitamente o paradoxo descrito no quarto parágrafo: a prosa de Braga parecia "solta e descompromissada" ("divagadora de quem conversa sem rumo certo"), mas escondia "muita complexidade" e "experiência particular, densa e complexa", com "achados de linguagem" que comunicavam alta densidade.
(E) Incorreta: A naturalidade é mencionada ("ilusória naturalidade", "próxima da linguagem coloquial"), e a conexão com a "tradição oral" (falas populares), mas o paradoxo principal não é apenas a sedução por meio da imitação de falas populares, e sim a profundidade e a arte que se disfarçavam sob essa naturalidade.
Fonte: FCC DPE-AM 2023 Analista Jurídico de Defensoria - Especialidade Ciências Jurídicas (Caderno Tipo 005). Reproduzida para fins de estudo.