Questão nº 13
Questão de Língua Portuguesa · FCC DPE-AM 2023 (nº 13)
Relógios
O dramaturgo Nelson Rodrigues – criatura de temperamento trágico e célebre autor de frases antológicas – terá dito um dia, talvez paternalmente: "Jovens, envelheçam!". Eis aqui um pedido desnecessário: a velhice virá, de qualquer modo, para quem conseguir envelhecer. Por outro lado, a juventude nunca se perde de todo: aposenta-se, fica guardadinha na vocação nostálgica do corpo e ainda ajudará, ao fim de tudo, a compor os traços da boa melancolia, das lembranças que os seres crepusculares ainda consigam tonificar dentro de si.
Não fossem os variados impulsos do tempo, com o que iríamos nos distraindo? Todos passamos por várias idades, por vários tipos de relógio. Há os que adiantam as coisas, há os que as atrasam. E há os que param inteiramente fora de hora. Sem falar nos relógios exibidos que se acham especialmente importantes e insistem em cantar a cada quarto de hora.
"Jovens, envelheçam!" – eis a provocação desmedida que partiu de um senhor já vivido e definitivamente cético. As paixões juvenis têm pressa, meu caro Nelson Rodrigues, e exigem providências imediatas. Ninguém segura as ondas de um mar revolto.
E se fôssemos falar do tempo da infância, quando nossa imaginação está no grau natural de nossas primeiras reflexões interrogativas? Eis aí um relógio que fica fazendo tique-taque, sem querer parar, em algum canto de alguma casa perdida...
Numa cena da minha mais antiga memória de menino, eu estava sentado na sarjeta, depois de uma chuva grossa, em frente de casa, com os pés na água da enxurrada que sequestrava meus olhos fixos, fazendo-me esquecer de mim mesmo e da necessidade de voltar a algum lugar, enquanto olhava infinitamente para os rebrilhos daquele riachinho escorregando rua abaixo. Creio que foi esta a primeira vez que entrei num tempo especial, um tempo esvaziado de tempo. Uma espécie de relógio sem ponteiros. Muito tempo depois, acabei envelhecendo, sim, seu Nelson Rodrigues.
(MEDEIROS, Alcindo Fortunato. Casos de almanaque, a editar)
São muitos os relógios que comandam nossa vida; não há como destituir esses relógios do poder de decisão que advém desses relógios, nem podemos ignorar o arbítrio desses relógios no instante em que decidem fazer soar nossa última hora.
Para evitar as viciosas repetições do período acima, impõe-se substituir os elementos sublinhados, na ordem dada, por:
- Adeles destituir – advém deles – ignorar-lhes seu arbítrio
- Bdestituir-lhes – advém-lhes – ignorar-lhes o arbítrio
- Cdestituí-los – deles advém – ignorar seu arbítrio (alternativa correta)
- Dos destituir – lhes advém – ignorá-los o arbítrio
- Elhes destituir – os advêm – lhes ignorar o arbítrio
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
Pronomes oblíquos átonos (como "o", "a", "os", "as", "lhe", "lhes") são usados para substituir termos na frase, evitando repetições. A escolha do pronome depende da função sintática do termo (objeto direto ou indireto) e sua colocação (antes, no meio ou depois do verbo) segue regras específicas da colocação pronominal.
- (A) Incorreta: "deles destituir" está incorreto porque "destituir" é verbo transitivo direto e pede pronome oblíquo átono de objeto direto (o, a, os, as, que viram lo, la, los, las após verbos terminados em -r, -s, -z). "Deles" é pronome tônico e não se usa para objeto direto. "ignorar-lhes seu arbítrio" está incorreto porque "ignorar" é verbo transitivo direto e "lhe(s)" é pronome de objeto indireto. Além disso, "seu arbítrio" já indica posse, tornando "lhes" redundante e inadequado.
- (B) Incorreta: "destituir-lhes" está incorreto porque "destituir" é verbo transitivo direto e pede pronome de objeto direto ("destituí-los"). "advém-lhes" está incorreto porque "advir" (advém de) pede um complemento com a preposição "de", sendo substituído por "deles" e não por "lhes" (que substitui "a ele/ela/eles/elas"). "ignorar-lhes o arbítrio" está incorreto porque "ignorar" é verbo transitivo direto, e "lhe(s)" é pronome de objeto indireto.
- (C) Correta:
- "destituí-los": Correto. "Destituir" é verbo transitivo direto (VTD), e "esses relógios" é o objeto direto. O pronome "os" (que vira "los" após verbo terminado em -r) o substitui corretamente, e a ênclise ("destituí-los") é a colocação padrão para infinitivos não precedidos de fator atrativo.
- "deles advém": Correto. "Advém desses relógios" indica um complemento preposicionado com "de". O pronome pessoal tônico "deles" (de + eles) substitui "desses relógios" de forma adequada.
- "ignorar seu arbítrio": Correto. Para evitar a repetição de "desses relógios" na expressão "o arbítrio desses relógios", usa-se o pronome possessivo "seu" (referindo-se a "relógios"), mantendo o sentido de posse e evitando a repetição.
- (D) Incorreta: "os destituir" está incorreto porque, com o infinitivo "destituir" sem palavra atrativa, a ênclise é a forma padrão ("destituí-los"). A próclise ("os destituir") só ocorreria com um fator atrativo antes do verbo. "lhes advém" está incorreto pelo mesmo motivo da alternativa B. "ignorá-los o arbítrio" está incorreto porque "ignorá-los" já substitui o objeto direto (se fosse "os relógios"). A presença de "o arbítrio" em seguida torna a construção redundante e gramaticalmente incorreta.
- (E) Incorreta: "lhes destituir" está incorreto porque "destituir" é verbo transitivo direto e pede pronome de objeto direto ("destituí-los"). "os advêm" está incorreto porque "advir" é um verbo que pede complemento com preposição "de", e "os" é pronome de objeto direto. "lhes ignorar o arbítrio" está incorreto porque "ignorar" é verbo transitivo direto, e "lhe(s)" é pronome de objeto indireto.
Fonte: FCC DPE-AM 2023 Analista Jurídico de Defensoria - Especialidade Ciências Jurídicas (Caderno Tipo 005). Reproduzida para fins de estudo.