Questão nº 3
Questão de Língua Portuguesa · FCC DPE-AM 2021 (nº 3)
O estranho ofício de escrever
Crônica? Nunca a célebre definição de Mário de Andrade (sobre o conto) veio tão a propósito: crônica é tudo aquilo que chamamos de crônica.
Nunca me esqueço do dia em que o Carlos Castello Branco me disse, a propósito das crônicas que eu escrevia no falecido Diário Carioca, já se vão muitos anos:
− Eu, se fosse você, parava um pouco. Essa sua última crônica estava de amargar.
Parei dois anos por causa disso. Quando recomecei, como todo cronista que se preza, vez por outra recauchutava um escrito antigo, à falta de coisa melhor, confiante no ineditismo que o tempo lhe conferia. Até que chegou o dia em que no meu estoque não restava senão uma, aquela que o Castellinho havia estigmatizado com seu implacável juízo crítico. Vai essa mesmo – decidi, tapando o nariz e escondendo a cara de vergonha.
Pois não vem o mesmo Castellinho me dizer, efusivo, a propósito da mesmíssima crônica:
− É das melhores coisas que você já escreveu.
Havia-se esquecido, o mandrião. E por causa dele eu passara dois anos no estaleiro. Quando lhe acusei a distração, ele não se perturbou:
− Agora achei boa. Ou a crônica melhorou, ou eu é que piorei.
Estão plenamente observadas as normas de concordância verbal na frase:
- ANão se esperem dos cronistas de jornal que nos brindem sempre com sua originalidade.
- BAo cronista Fernando Sabino não haveriam de faltar meios para reativar crônicas antigas. (alternativa correta)
- CPor vezes destacam-se entre as melhores crônicas a que já considerou como medíocre.
- DA quem, senão aos bons leitores, cabem julgar as reais qualidades de um texto?
- ETeria faltado ao Castellinho, leitor rigoroso, critérios para um julgamento mais coerente?
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
Concordância verbal é a regra gramatical que exige que o verbo se ajuste em número (singular ou plural) e pessoa (1ª, 2ª ou 3ª) ao seu sujeito. Para aplicá-la corretamente, o primeiro passo é sempre identificar o sujeito da oração.
- (A) Incorreta: O sujeito do verbo "esperar" (na construção com "se" e sentido de voz passiva sintética) é a oração subordinada "que nos brindem sempre com sua originalidade". Quando o sujeito é uma oração, o verbo deve permanecer no singular. O correto seria "Não se espere".
- (B) Correta: O sujeito da locução verbal "haveriam de faltar" é "meios". Como "meios" está no plural, o verbo "faltar" (e seu auxiliar "haver") deve concordar no plural, formando "haveriam de faltar". A armadilha aqui é a inversão do sujeito, que aparece depois do verbo, e a presença de um termo no singular ("Ao cronista Fernando Sabino") que não é o sujeito, mas sim um complemento.
- (C) Incorreta: O sujeito do verbo "destacar-se" é "a que já considerou como medíocre" (significando "aquela que..."), que é singular. Portanto, o verbo deveria estar no singular: "destaca-se".
- (D) Incorreta: O sujeito do verbo "caber" é a oração infinitiva "julgar as reais qualidades de um texto". Quando o sujeito é uma oração infinitiva, o verbo permanece no singular. O correto seria "cabe".
- (E) Incorreta: O sujeito da locução verbal "Teria faltado" é "critérios". Como "critérios" está no plural, o verbo "faltar" (e seu auxiliar "ter") deve concordar no plural. O correto seria "Teriam faltado".
Fonte: FCC DPE-AM 2021 Analista Jurídico de Defensoria - Especialidade Ciências Jurídicas (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.