Questão nº 53

Questão de Língua Portuguesa · FCC CMFOR 2019 (nº 53)

FCC2019RevisorLíngua Portuguesa
Gabarito: Cver comentário ↓

No livro A velhice*, Simone de Beauvoir não apresenta muitas alternativas para construir um olhar positivo sobre a última fase da vida. Ela tem como propósito fundamental denunciar a conspiração do silêncio e revelar como a sociedade trata os velhos: eles costumam ser desprezados e estigmatizados. Apesar de ter consciência de que são inúmeros os problemas relacionados ao processo de envelhecimento, quero compreender se existe algum caminho para chegar à última fase da vida de uma maneira mais plena e mais feliz. Encontro na própria Simone de Beauvoir a resposta para esta questão. Ela sugere, nas entrelinhas de* A velhice*, um possível caminho para a construção de uma “bela velhice”: o projeto de vida.*

No Brasil temos vários exemplos de “belos velhos”: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Ney Matogrosso, Chico Buarque, Marieta Severo, Rita Lee, entre outros. Duvido que alguém consiga enxergar neles, que já chegaram ou estão chegando aos 70 anos, um retrato negativo do envelhecimento. São típicos exemplos de pessoas chamadas “sem idade”.

Fazem parte de uma geração que não aceitará o imperativo “Seja um velho!” ou qualquer outro rótulo que sempre contestaram. São de uma geração que transformou comportamentos e valores de homens e mulheres, que inventou diferentes arranjos amorosos e que legitimou novas formas de família. Esses “belos velhos” inventaram um lugar especial no mundo e se reinventam permanentemente. Continuam cantando, dançando, criando, amando, brincando, trabalhando, transgredindo tabus. Não se aposentaram de si mesmos, recusaram as regras que os obrigariam a se comportar como velhos. Não se tornaram invisíveis, infelizes, deprimidos. Eles, como tantos outros “belos velhos”, rejeitam estereótipos e dão novos significados ao envelhecimento. Como diz a música de Arnaldo Antunes, “Somos o que somos: inclassificáveis”.

Desde muito cedo, somos livres para fazer escolhas. “A liberdade é o que você faz com o que a vida fez com você”. Esta máxima existencialista é fundamental para compreender a construção de um projeto de vida. O projeto de cada indivíduo pode ser traçado desde a infância, mas também pode ser construído ou modificado nas diferentes fases da vida, pois a ênfase existencialista se coloca no exercício permanente da liberdade de escolha e da responsabilidade individual na construção de um projeto de vida que dê significado às nossas existências até os últimos dias.

(Adaptado de: GOLDENBERG, Mirian. A bela velhice. Record. edição digital)


De acordo com a máxima existencialista (4º parágrafo),

Resposta comentada

Gabarito Alternativa C

Conceito-chave: A máxima existencialista defende que a vida não tem uma essência pronta; somos nós que a construímos pelas escolhas. Isso significa que liberdade e responsabilidade andam juntas: você pode (e deve) criar seu projeto de vida e mudá-lo quando quiser, até o fim.

(A) Incorreta: A máxima afirma o contrário: a liberdade de escolha existe em qualquer idade, inclusive na velhice, não sendo uma ilusão subjetiva.

(B) Incorreta: O texto diz explicitamente que o projeto pode ser traçado na infância, mas também construído ou modificado nas diferentes fases; não exige que seja fixado na infância e mantido até o fim.

(C) Correta: É exatamente o que o 4º parágrafo afirma: o projeto de vida pode ser traçado desde cedo, mas a ênfase está no exercício permanente da liberdade para construí-lo e alterá-lo ao longo da existência.

(D) Incorreta: A visão existencialista rejeita qualquer predeterminação natural ou leis imutáveis; ela valoriza a escolha pessoal contra qualquer destino fixo.

(E) Incorreta: Essa é a visão determinista (causa e efeito), oposta ao existencialismo, que coloca a escolha pessoal como centro, não como algo que ocorre independentemente dela.

Armadilha da banca na (B): A pegadinha está no "já na infância" e "sustentá-lo até a velhice". O texto diz que o projeto pode começar na infância, mas a banca trocou "pode" por "deve" e excluiu a possibilidade de mudança. O existencialismo valoriza a reinvenção constante, não a rigidez de um plano vitalício.

Fonte: FCC CMFOR 2019 Revisor (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.

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