Questão nº 51
Questão de Língua Portuguesa · FCC CMFOR 2019 (nº 51)
No livro A velhice*, Simone de Beauvoir não apresenta muitas alternativas para construir um olhar positivo sobre a última fase da vida. Ela tem como propósito fundamental denunciar a conspiração do silêncio e revelar como a sociedade trata os velhos: eles costumam ser desprezados e estigmatizados. Apesar de ter consciência de que são inúmeros os problemas relacionados ao processo de envelhecimento, quero compreender se existe algum caminho para chegar à última fase da vida de uma maneira mais plena e mais feliz. Encontro na própria Simone de Beauvoir a resposta para esta questão. Ela sugere, nas entrelinhas de* A velhice*, um possível caminho para a construção de uma “bela velhice”: o projeto de vida.*
No Brasil temos vários exemplos de “belos velhos”: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Ney Matogrosso, Chico Buarque, Marieta Severo, Rita Lee, entre outros. Duvido que alguém consiga enxergar neles, que já chegaram ou estão chegando aos 70 anos, um retrato negativo do envelhecimento. São típicos exemplos de pessoas chamadas “sem idade”.
Fazem parte de uma geração que não aceitará o imperativo “Seja um velho!” ou qualquer outro rótulo que sempre contestaram. São de uma geração que transformou comportamentos e valores de homens e mulheres, que inventou diferentes arranjos amorosos e que legitimou novas formas de família. Esses “belos velhos” inventaram um lugar especial no mundo e se reinventam permanentemente. Continuam cantando, dançando, criando, amando, brincando, trabalhando, transgredindo tabus. Não se aposentaram de si mesmos, recusaram as regras que os obrigariam a se comportar como velhos. Não se tornaram invisíveis, infelizes, deprimidos. Eles, como tantos outros “belos velhos”, rejeitam estereótipos e dão novos significados ao envelhecimento. Como diz a música de Arnaldo Antunes, “Somos o que somos: inclassificáveis”.
Desde muito cedo, somos livres para fazer escolhas. “A liberdade é o que você faz com o que a vida fez com você”. Esta máxima existencialista é fundamental para compreender a construção de um projeto de vida. O projeto de cada indivíduo pode ser traçado desde a infância, mas também pode ser construído ou modificado nas diferentes fases da vida, pois a ênfase existencialista se coloca no exercício permanente da liberdade de escolha e da responsabilidade individual na construção de um projeto de vida que dê significado às nossas existências até os últimos dias.
(Adaptado de: GOLDENBERG, Mirian. A bela velhice. Record. edição digital)
Atente para as afirmações abaixo.
I. A conclusão de Simone de Beauvoir a respeito do processo de envelhecimento é repudiada pela autora do texto por ser pessimista.
II. Ícones da classe artística dispõem de mais recursos para rebater os preconceitos sociais relacionados ao processo de envelhecimento.
III. Pessoas chamadas de “sem idade” renegam os estereótipos relacionados à definição do que seja uma pessoa velha.
IV. A geração que legitimou novas formas de família estava despreparada para as consequências negativas do envelhecimento.
Está correto o que consta APENAS de
- AI e II.
- BIII. (alternativa correta)
- CI e III.
- DIII e IV.
- EII e IV.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
Conceito-chave: A autora não repudia Beauvoir; ela a usa como base para encontrar uma saída positiva. A ideia central é que “bela velhice” depende de um projeto de vida e da recusa a estereótipos, não de recursos financeiros ou fama.
- (A) Incorreta: A autora não repudia Beauvoir; ela parte da denúncia da filósofa para buscar, nas entrelinhas, um caminho positivo (o projeto de vida). A armadilha aqui é confundir “não apresentar muitas alternativas” com “ser pessimista e repudiada”, quando o texto apenas constata o diagnóstico crítico de Beauvoir.
- (B) Correta: A afirmação III resume o núcleo do texto: os “belos velhos” (Caetano, Gil, etc.) são chamados de “sem idade” justamente porque rejeitam estereótipos e os rótulos de “ser velho”, reinventando-se permanentemente. É a tese central defendida pela autora.
- (C) Incorreta: O erro está na afirmação I, como explicado na alternativa A. A autora não repudia Beauvoir; ela a utiliza como ponto de partida. Quem cair nessa pegadinha lê “não apresenta muitas alternativas” como “pessimismo a ser rejeitado”, mas o texto mostra o oposto: a autora encontra em Beauvoir a própria resposta.
- (D) Incorreta: A afirmação IV é falsa porque o texto diz exatamente o contrário: a geração que legitimou novas formas de família é a mesma que “não se aposentou de si mesmos” e que se reinventa, não estando “despreparada” para o envelhecimento, mas sim o ressignificando.
- (E) Incorreta: A afirmação II é uma inferência sem base no texto: o texto não menciona recursos financeiros ou privilégios da classe artística como causa da “bela velhice”. A explicação dada é o projeto de vida e a recusa a rótulos, algo acessível a qualquer pessoa, não exclusivo de artistas famosos.
Fonte: FCC CMFOR 2019 Revisor (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.