Questão nº 6
Questão de Língua Portuguesa · FCC CLDF 2018 (nº 6)
Sinto inveja dos contistas. Para mim, é mais fácil escrever um romance de 200 páginas que um conto de duas.
Já se tentou explicar em fórmulas narrativas a diferença entre um conto, uma novela e um romance, mas o leitor, que não precisa de teoria, sabe exatamente o que é uma coisa ou outra assim que começa a ler; quando termina logo, é um conto. O critério do tamanho prossegue invencível.
Para entender o gênero, criei arbitrariamente um ponto mínimo de partida, que considero o menor conto do mundo, uma síntese mortal de Dalton Trevisan: "Nunca me senti tão só, querida, como na tua companhia".
Temos aí dois personagens, um diálogo implícito e uma intriga tensa que parece vir de longe e não acabar com o conto. Bem, por ser um gênero curto, o conto é também, por parecer fácil, uma perigosa porta aberta em que cabe tudo de cambulhada.
Desde Machado de Assis, que colocou o gênero entre nós num patamar muito alto já no seu primeiro instante, a aparente facilidade do conto vem destroçando vocações.
Além disso, há a maldição dos editores, refletindo uma suposta indiferença dos leitores: "conto não vende". Essa é uma questão comercial, não literária. Porque acabo de ler dois ótimos livros de contos que quebram qualquer preconceito eventual que se tenha contra o gênero.
Os contos de A Cidade Dorme*, de Luiz Ruffato, que já havia demonstrado ser um mestre da história curta no excelente* Flores Artificiais*, formam uma espécie de painel do "Brasil profundo", a gigantesca classe média pobre que luta para sobreviver, espremida em todo canto do país entre os sonhos e a violência.*
Em toda frase, sente-se o ouvido afinado da linguagem coloquial que transborda nossa cultura pelo arcaísmo de signos singelos: "Mas eu não queria ser torneiro-mecânico, queria mesmo era ser bancário, que nem o marido da minha professora, dona Aurora".
O atávico país rural, com o seu inesgotável atraso, explode em todos os poros da cidade moderna.
Já nos dez contos de Reserva Natural*, de Rodrigo Lacerda, que se estruturam classicamente como "intrigas", na melhor herança machadiana, o mesmo Brasil se desdobra em planos individuais; e o signo forte de "reserva natural" perde seu limite geográfico para ganhar a tensão da condição humana.*
Como diz o narrador do conto "Sempre assim", "é tudo uma engrenagem muito maior".
(Adaptado de: TEZZA, Cristovão Disponível em: www1.folha.uol.com.br)
Está gramaticalmente correta a redação do seguinte comentário:
- ATezza, autor que confessa ter inveja dos bons contistas, consideram romances de 200 páginas mais fáceis de serem escritos do que um conto de duas.
- BPor se deixarem influenciar pela ideia de que os leitores não apreciam tal gênero, vê-se editores que não se interessam em publicar contos.
- CO critério do tamanho prossegue invencível para o leitor que, alheio à fórmulas narrativas, sabe se tratar de um conto a obra de breve leitura.
- DDe apenas uma frase, o conto de Dalton Trevisan, foi arbitrariamente escolhido por Tezza como ponto de partida para determinar certas características que um conto deveria apresentar.
- EApós a publicação de Flores Artificiais, Luiz Ruffato consagrou-se como um notável autor de contos, fenômeno que se repetiu com o lançamento de A Cidade Dorme. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
Concordância verbal é a regra que diz que o verbo (a ação na frase) deve sempre combinar em número (singular ou plural) e pessoa (quem faz a ação: eu, tu, ele, nós, vós, eles) com o seu sujeito (quem pratica ou sofre a ação). Se o sujeito é singular, o verbo fica no singular; se o sujeito é plural, o verbo fica no plural.
- (A) Incorreta: O sujeito da oração é "Tezza", que está no singular. O verbo "consideram" está no plural. O correto seria "Tezza... considera".
- (B) Incorreta: A construção "vê-se editores" está errada. Quando o "se" atua como partícula apassivadora e o sujeito paciente (quem é visto) está no plural ("editores"), o verbo deve concordar com ele. O correto seria "veem-se editores". A armadilha é a tendência de manter o verbo no singular com a partícula "se", ignorando a concordância com o sujeito paciente plural.
- (C) Incorreta: A crase em "alheio à fórmulas narrativas" está empregada de forma incorreta. "Alheio a" pede a preposição "a". Como "fórmulas" é um substantivo feminino plural e não está determinado por um artigo feminino plural "as", não ocorre a crase. O correto seria "alheio a fórmulas narrativas" ou "alheio às fórmulas narrativas" (se houvesse o artigo).
- (D) Incorreta: Há um erro de pontuação. A vírgula após "Dalton Trevisan" separa o sujeito ("o conto de Dalton Trevisan") do seu verbo ("foi escolhido"), o que é proibido pela norma culta da língua portuguesa.
- (E) Correta: Todas as concordâncias verbais e nominais estão corretas, assim como a pontuação e a regência. "Luiz Ruffato" (singular) concorda com "consagrou-se" (singular). "Fenômeno" (singular) concorda com "repetiu" (singular).
Fonte: FCC CLDF 2018 T38 - Técnico Legislativo - Técnico Legislativo (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.