Questão nº 1
Questão de Língua Portuguesa · FCC CLDF 2018 (nº 1)
Sinto inveja dos contistas. Para mim, é mais fácil escrever um romance de 200 páginas que um conto de duas.
Já se tentou explicar em fórmulas narrativas a diferença entre um conto, uma novela e um romance, mas o leitor, que não precisa de teoria, sabe exatamente o que é uma coisa ou outra assim que começa a ler; quando termina logo, é um conto. O critério do tamanho prossegue invencível.
Para entender o gênero, criei arbitrariamente um ponto mínimo de partida, que considero o menor conto do mundo, uma síntese mortal de Dalton Trevisan: "Nunca me senti tão só, querida, como na tua companhia".
Temos aí dois personagens, um diálogo implícito e uma intriga tensa que parece vir de longe e não acabar com o conto. Bem, por ser um gênero curto, o conto é também, por parecer fácil, uma perigosa porta aberta em que cabe tudo de cambulhada.
Desde Machado de Assis, que colocou o gênero entre nós num patamar muito alto já no seu primeiro instante, a aparente facilidade do conto vem destroçando vocações.
Além disso, há a maldição dos editores, refletindo uma suposta indiferença dos leitores: "conto não vende". Essa é uma questão comercial, não literária. Porque acabo de ler dois ótimos livros de contos que quebram qualquer preconceito eventual que se tenha contra o gênero.
Os contos de A Cidade Dorme*, de Luiz Ruffato, que já havia demonstrado ser um mestre da história curta no excelente* Flores Artificiais*, formam uma espécie de painel do "Brasil profundo", a gigantesca classe média pobre que luta para sobreviver, espremida em todo canto do país entre os sonhos e a violência.*
Em toda frase, sente-se o ouvido afinado da linguagem coloquial que transborda nossa cultura pelo arcaísmo de signos singelos: "Mas eu não queria ser torneiro-mecânico, queria mesmo era ser bancário, que nem o marido da minha professora, dona Aurora".
O atávico país rural, com o seu inesgotável atraso, explode em todos os poros da cidade moderna.
Já nos dez contos de Reserva Natural*, de Rodrigo Lacerda, que se estruturam classicamente como "intrigas", na melhor herança machadiana, o mesmo Brasil se desdobra em planos individuais; e o signo forte de "reserva natural" perde seu limite geográfico para ganhar a tensão da condição humana.*
Como diz o narrador do conto "Sempre assim", "é tudo uma engrenagem muito maior".
(Adaptado de: TEZZA, Cristovão Disponível em: www1.folha.uol.com.br)
Considere as afirmações abaixo.
I. Identifica-se noção de finalidade na oração que inicia o 3º parágrafo.
II. No 10º parágrafo, o autor, ao avaliar os contos do escritor Rodrigo Lacerda, aponta para o fato de que, embora representem com maestria certas questões estritamente nacionais, furtam-se a abordar questões universais, concernentes à condição humana.
III. Depreende-se do texto que o conto, gênero instaurado no país pelo escritor Machado de Assis, é mais fácil de ser elaborado do que o romance devido à sua curta extensão.
Está correto o que se afirma APENAS em
- AI. (alternativa correta)
- BII e III.
- CI e III.
- DII.
- EI e II.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
Para interpretar textos, é fundamental ler com atenção e buscar as informações explicitamente ditas ou claramente inferíveis, sem adicionar ideias próprias ou distorcer o que foi escrito. A finalidade em uma oração indica o propósito ou objetivo de uma ação.
(A) Correta: A oração "Para entender o gênero" (3º parágrafo) utiliza a preposição "Para" seguida de um verbo no infinitivo ("entender"), que é uma construção clássica para expressar finalidade ou objetivo. O autor criou um ponto de partida com o objetivo de entender o gênero.
(B) Incorreta: A afirmação é falsa porque o 10º parágrafo diz o oposto: os contos de Rodrigo Lacerda "perde[m] seu limite geográfico para ganhar a tensão da condição humana", ou seja, eles abordam questões universais, não se furtam a elas.
(C) Incorreta: A afirmação é falsa por duas razões. Primeiro, o texto não diz que Machado de Assis "instaurou" o gênero, mas sim que "colocou o gênero entre nós num patamar muito alto". Segundo, o autor afirma no 1º parágrafo que "é mais fácil escrever um romance de 200 páginas que um conto de duas", e nos parágrafos 4 e 5, ele reforça que a facilidade do conto é apenas "aparente", sendo na verdade um gênero difícil.
(D) Incorreta: A afirmação é falsa. Conforme explicado em (B), o 10º parágrafo indica que os contos de Lacerda abordam a condição humana, não se furtam a ela.
(E) Incorreta: A afirmação é falsa. Conforme explicado em (B) e (C), as afirmações II e III são incorretas.
Fonte: FCC CLDF 2018 T38 - Técnico Legislativo - Técnico Legislativo (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.