Questão nº 5
Questão de Língua Portuguesa · FCC CLDF 2018 (nº 5)
Sinto inveja dos contistas. Para mim, é mais fácil escrever um romance de 200 páginas que um conto de duas.
Já se tentou explicar em fórmulas narrativas a diferença entre um conto, uma novela e um romance, mas o leitor, que não precisa de teoria, sabe exatamente o que é uma coisa ou outra assim que começa a ler; quando termina logo, é um conto. O critério do tamanho prossegue invencível.
Para entender o gênero, criei arbitrariamente um ponto mínimo de partida, que considero o menor conto do mundo, uma síntese mortal de Dalton Trevisan: "Nunca me senti tão só, querida, como na tua companhia".
Temos aí dois personagens, um diálogo implícito e uma intriga tensa que parece vir de longe e não acabar com o conto. Bem, por ser um gênero curto, o conto é também, por parecer fácil, uma perigosa porta aberta em que cabe tudo de cambulhada.
Desde Machado de Assis, que colocou o gênero entre nós num patamar muito alto já no seu primeiro instante, a aparente facilidade do conto vem destroçando vocações.
Além disso, há a maldição dos editores, refletindo uma suposta indiferença dos leitores: "conto não vende". Essa é uma questão comercial, não literária. Porque acabo de ler dois ótimos livros de contos que quebram qualquer preconceito eventual que se tenha contra o gênero.
Os contos de A Cidade Dorme*, de Luiz Ruffato, que já havia demonstrado ser um mestre da história curta no excelente* Flores Artificiais*, formam uma espécie de painel do "Brasil profundo", a gigantesca classe média pobre que luta para sobreviver, espremida em todo canto do país entre os sonhos e a violência.*
Em toda frase, sente-se o ouvido afinado da linguagem coloquial que transborda nossa cultura pelo arcaísmo de signos singelos: "Mas eu não queria ser torneiro-mecânico, queria mesmo era ser bancário, que nem o marido da minha professora, dona Aurora".
O atávico país rural, com o seu inesgotável atraso, explode em todos os poros da cidade moderna.
Já nos dez contos de Reserva Natural*, de Rodrigo Lacerda, que se estruturam classicamente como "intrigas", na melhor herança machadiana, o mesmo Brasil se desdobra em planos individuais; e o signo forte de "reserva natural" perde seu limite geográfico para ganhar a tensão da condição humana.*
Como diz o narrador do conto "Sempre assim", "é tudo uma engrenagem muito maior".
(Adaptado de: TEZZA, Cristovão Disponível em: www1.folha.uol.com.br)
Ao se modificar a pontuação do texto, a frase que permanece correta, mantendo-se, em linhas gerais, o sentido original, está em:
- AOs contos [...] formam uma espécie de painel do "Brasil profundo"; a gigantesca classe média pobre que, luta para sobreviver, espremida em todo canto do país, entre os sonhos e a violência.
- B... por ser um gênero curto, o conto é: também, por parecer fácil, uma perigosa porta aberta, em que cabe tudo, de cambulhada.
- CDesde Machado de Assis, que colocou o gênero entre nós num patamar muito alto, já no seu primeiro instante a aparente facilidade do conto, vem destroçando vocações.
- DJá se tentou explicar, em fórmulas narrativas, a diferença entre um conto, uma novela e um romance... (alternativa correta)
- EO atávico, país rural, com o seu inesgotável atraso explode, em todos os poros, da cidade moderna.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
A pontuação serve para organizar as ideias no texto, indicar pausas e entonações, e garantir a clareza do sentido. Um uso incorreto das vírgulas, por exemplo, pode alterar completamente a interpretação de uma frase.
- (A) Incorreta: O ponto e vírgula após "profundo" está incorreto, pois a oração seguinte é um aposto explicativo, que deveria ser introduzido por vírgula. A vírgula após "que" e após "país" também estão incorretas, separando elementos que não devem ser separados.
- (B) Incorreta: O uso do dois-pontos após "é" está incorreto, pois não introduz uma enumeração, citação ou explicação direta. As vírgulas após "também", "aberta" e "tudo" também estão mal empregadas, quebrando a fluidez e a correção sintática.
- (C) Incorreta: A vírgula após "conto" ("a aparente facilidade do conto, vem destroçando vocações") está incorreta, pois separa o sujeito ("a aparente facilidade do conto") do seu predicado ("vem destroçando vocações"). Essa é a armadilha da banca: nunca se separa o sujeito do predicado por uma única vírgula.
- (D) Correta: A frase original não usa vírgulas para isolar o adjunto adverbial "em fórmulas narrativas". No entanto, é perfeitamente correto e aceitável isolar um adjunto adverbial de média extensão, especialmente quando intercalado ou para dar ênfase, com vírgulas, sem alterar o sentido essencial da frase.
- (E) Incorreta: A vírgula após "atávico" separa um adjetivo do substantivo que ele modifica. A vírgula após "explode" separa o verbo de seu complemento/adjunto. A vírgula após "poros" separa um adjunto adnominal restritivo. Todos esses usos são incorretos.
Fonte: FCC CLDF 2018 T38 - Técnico Legislativo - Técnico Legislativo (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.