Questão nº 4
Questão de Língua Portuguesa · FCC CLDF 2018 (nº 4)
Sinto inveja dos contistas. Para mim, é mais fácil escrever um romance de 200 páginas que um conto de duas.
Já se tentou explicar em fórmulas narrativas a diferença entre um conto, uma novela e um romance, mas o leitor, que não precisa de teoria, sabe exatamente o que é uma coisa ou outra assim que começa a ler; quando termina logo, é um conto. O critério do tamanho prossegue invencível.
Para entender o gênero, criei arbitrariamente um ponto mínimo de partida, que considero o menor conto do mundo, uma síntese mortal de Dalton Trevisan: "Nunca me senti tão só, querida, como na tua companhia".
Temos aí dois personagens, um diálogo implícito e uma intriga tensa que parece vir de longe e não acabar com o conto. Bem, por ser um gênero curto, o conto é também, por parecer fácil, uma perigosa porta aberta em que cabe tudo de cambulhada.
Desde Machado de Assis, que colocou o gênero entre nós num patamar muito alto já no seu primeiro instante, a aparente facilidade do conto vem destroçando vocações.
Além disso, há a maldição dos editores, refletindo uma suposta indiferença dos leitores: "conto não vende". Essa é uma questão comercial, não literária. Porque acabo de ler dois ótimos livros de contos que quebram qualquer preconceito eventual que se tenha contra o gênero.
Os contos de A Cidade Dorme*, de Luiz Ruffato, que já havia demonstrado ser um mestre da história curta no excelente* Flores Artificiais*, formam uma espécie de painel do "Brasil profundo", a gigantesca classe média pobre que luta para sobreviver, espremida em todo canto do país entre os sonhos e a violência.*
Em toda frase, sente-se o ouvido afinado da linguagem coloquial que transborda nossa cultura pelo arcaísmo de signos singelos: "Mas eu não queria ser torneiro-mecânico, queria mesmo era ser bancário, que nem o marido da minha professora, dona Aurora".
O atávico país rural, com o seu inesgotável atraso, explode em todos os poros da cidade moderna.
Já nos dez contos de Reserva Natural*, de Rodrigo Lacerda, que se estruturam classicamente como "intrigas", na melhor herança machadiana, o mesmo Brasil se desdobra em planos individuais; e o signo forte de "reserva natural" perde seu limite geográfico para ganhar a tensão da condição humana.*
Como diz o narrador do conto "Sempre assim", "é tudo uma engrenagem muito maior".
(Adaptado de: TEZZA, Cristovão Disponível em: www1.folha.uol.com.br)
O segmento sublinhado em Para mim, é mais fácil escrever um romance de 200 páginas... (1º parágrafo) exerce a mesma função sintática do segmento sublinhado em:
- A... o leitor, que não precisa de teoria, sabe exatamente...
- B... acabo de ler dois ótimos livros de contos... (alternativa correta)
- CO atávico país rural (...) explode em todos os poros da cidade moderna.
- D... "é tudo uma engrenagem muito maior".
- EEssa é uma questão comercial...
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
O objeto direto é o termo da oração que completa o sentido de um verbo transitivo direto sem a necessidade de uma preposição. Ele indica o "alvo" da ação verbal. No segmento original "escrever um romance de 200 páginas", "um romance de 200 páginas" é o objeto direto do verbo "escrever", pois responde à pergunta "escrever o quê?".
(A) Incorreta: O "que" é um pronome relativo que, na oração subordinada "que não precisa de teoria", exerce a função de sujeito do verbo "precisa".
(B) Correta: No segmento "acabo de ler dois ótimos livros de contos", "dois ótimos livros de contos" é o objeto direto do verbo "ler" (parte da locução verbal "acabo de ler"), pois responde à pergunta "ler o quê?".
(C) Incorreta: O segmento "em todos os poros da cidade moderna" indica o lugar onde a ação ocorre, sendo, portanto, um adjunto adverbial de lugar.
(D) Incorreta: O segmento "tudo" é o sujeito do verbo de ligação "é". A armadilha aqui é que "tudo" é um pronome indefinido e pode gerar confusão, mas com o verbo "ser", ele atua como sujeito.
(E) Incorreta: O segmento "uma questão comercial" é o predicativo do sujeito "Essa", pois atribui uma característica ao sujeito por meio de um verbo de ligação ("é").
Fonte: FCC CLDF 2018 T38 - Técnico Legislativo - Técnico Legislativo (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.