Questão nº 3
Questão de Língua Portuguesa · FCC CLDF 2018 (nº 3)
Sinto inveja dos contistas. Para mim, é mais fácil escrever um romance de 200 páginas que um conto de duas.
Já se tentou explicar em fórmulas narrativas a diferença entre um conto, uma novela e um romance, mas o leitor, que não precisa de teoria, sabe exatamente o que é uma coisa ou outra assim que começa a ler; quando termina logo, é um conto. O critério do tamanho prossegue invencível.
Para entender o gênero, criei arbitrariamente um ponto mínimo de partida, que considero o menor conto do mundo, uma síntese mortal de Dalton Trevisan: "Nunca me senti tão só, querida, como na tua companhia".
Temos aí dois personagens, um diálogo implícito e uma intriga tensa que parece vir de longe e não acabar com o conto. Bem, por ser um gênero curto, o conto é também, por parecer fácil, uma perigosa porta aberta em que cabe tudo de cambulhada.
Desde Machado de Assis, que colocou o gênero entre nós num patamar muito alto já no seu primeiro instante, a aparente facilidade do conto vem destroçando vocações.
Além disso, há a maldição dos editores, refletindo uma suposta indiferença dos leitores: "conto não vende". Essa é uma questão comercial, não literária. Porque acabo de ler dois ótimos livros de contos que quebram qualquer preconceito eventual que se tenha contra o gênero.
Os contos de A Cidade Dorme*, de Luiz Ruffato, que já havia demonstrado ser um mestre da história curta no excelente* Flores Artificiais*, formam uma espécie de painel do "Brasil profundo", a gigantesca classe média pobre que luta para sobreviver, espremida em todo canto do país entre os sonhos e a violência.*
Em toda frase, sente-se o ouvido afinado da linguagem coloquial que transborda nossa cultura pelo arcaísmo de signos singelos: "Mas eu não queria ser torneiro-mecânico, queria mesmo era ser bancário, que nem o marido da minha professora, dona Aurora".
O atávico país rural, com o seu inesgotável atraso, explode em todos os poros da cidade moderna.
Já nos dez contos de Reserva Natural*, de Rodrigo Lacerda, que se estruturam classicamente como "intrigas", na melhor herança machadiana, o mesmo Brasil se desdobra em planos individuais; e o signo forte de "reserva natural" perde seu limite geográfico para ganhar a tensão da condição humana.*
Como diz o narrador do conto "Sempre assim", "é tudo uma engrenagem muito maior".
(Adaptado de: TEZZA, Cristovão Disponível em: www1.folha.uol.com.br)
Considerando-se o contexto, está correto o que se afirma em:
- AOs termos sublinhados em que quebram qualquer preconceito eventual que se tenha contra o gênero (6º parágrafo) constituem, respectivamente, um pronome e uma conjunção que introduz oração com função de predicativo.
- BEliminando-se o verbo "tentar" da frase Já se tentou explicar em fórmulas narrativas a diferença entre um conto, uma novela e um romance..., sem que nenhuma outra modificação seja feita, o verbo "explicar" deve assumir a seguinte forma: explicaram.
- CNo segmento Desde Machado de Assis, que colocou o gênero entre nós num patamar muito alto..., o pronome "que" pode ser substituído por "onde".
- DUma redação alternativa gramaticalmente correta para a frase Temos aí dois personagens, um diálogo implícito e uma intriga tensa..., na qual se eliminam traços de informalidade, é: Na obra, apresenta-se dois personagens, um diálogo implícito e uma intriga tensa...
- ESem prejuízo do sentido original, a expressão "que nem", no segmento que nem o marido da minha professora (8º parágrafo), pode ser substituída por "como". (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
A chave para resolver esta questão está em analisar a equivalência de sentido e a correção gramatical das substituições ou transformações propostas, focando em classes de palavras, funções sintáticas e normas da língua portuguesa.
(A) Incorreta: O primeiro "que" ("que quebram") é um pronome relativo que retoma "livros de contos". O segundo "que" ("que se tenha") também é um pronome relativo que retoma "preconceito eventual". Ambos introduzem orações subordinadas adjetivas restritivas, e não uma oração com função de predicativo.
(B) Incorreta: A frase original "Já se tentou explicar..." usa "se" como índice de indeterminação do sujeito (ou partícula apassivadora, dependendo da análise, mas o verbo "tentar" está no singular). Se eliminarmos "tentou", a estrutura "Já se explicar..." fica agramatical. Para manter o sentido de que "a diferença foi explicada" ou "alguém explicou a diferença", e considerando o "se", a forma mais natural seria "Já se explicou a diferença...", mantendo o verbo no singular para concordar com o sujeito paciente "a diferença" (se "se" for PA) ou para manter a indeterminação do sujeito (se "se" for IIS). A forma "explicaram" implicaria um sujeito plural explícito ou facilmente inferível, o que não ocorre na estrutura original.
(C) Incorreta: O pronome "que" em "Machado de Assis, que colocou..." refere-se a "Machado de Assis", que é uma pessoa. O pronome "onde" é usado exclusivamente para se referir a lugar físico. Portanto, a substituição é semanticamente e gramaticalmente incorreta.
(D) Incorreta: A frase proposta "Na obra, apresenta-se dois personagens, um diálogo implícito e uma intriga tensa..." contém um erro de concordância verbal. O "se" atua como partícula apassivadora, e o verbo deve concordar com o sujeito paciente. O sujeito paciente é "dois personagens, um diálogo implícito e uma intriga tensa", que é um sujeito composto e plural. Assim, o verbo deveria ser "apresentam-se" (plural), e não "apresenta-se" (singular). Armadilha: A intenção de formalizar a frase é correta, mas o erro de concordância verbal torna a alternativa incorreta, pegando o aluno que não percebe a necessidade de pluralizar o verbo com a partícula "se" e um sujeito plural.
(E) Correta: A expressão "que nem" é uma locução conjuntiva de uso informal que significa "como", "assim como", indicando comparação. A palavra "como" é um advérbio ou conjunção que também estabelece comparação. Ambas as expressões, no contexto dado ("queria mesmo era ser bancário, que nem o marido da minha professora"), expressam a mesma ideia de comparação ou semelhança, mantendo o sentido original da frase.
Fonte: FCC CLDF 2018 T38 - Técnico Legislativo - Técnico Legislativo (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.