Questão nº 25
Questão de Língua Portuguesa · FCC ALAP 2019 (nº 25)
O texto não deve ser entendido como um objeto computável. Seria vão tentar separar materialmente as obras dos textos. Em particular, não se deve ser levado a dizer: a obra é clássica, o texto é de vanguarda; não se trata de estabelecer, em nome da modernidade, um quadro de honra grosseiro e declarar certas produções literárias in e outras out em razão de sua situação cronológica: pode haver "Texto" numa obra muito antiga, e muitos produtos da literatura contemporânea não são em nada textos. A diferença é a seguinte: a obra é um fragmento de uma substância, ocupa alguma porção do espaço dos livros (por exemplo, numa biblioteca). Já o Texto é um campo metodológico. A oposição poderia lembrar (mas de modo algum reproduzir termo a termo) a distinção proposta por Lacan: a "realidade" se mostra, o "real" se demonstra; da mesma forma, a obra se vê (nas livrarias, nos fichários, nos programas de exame), o texto se demonstra, se fala segundo certas regras; a obra segura-se na mão, o texto mantém-se na linguagem: ele só existe tomado num discurso (ou melhor, é o Texto pelo fato mesmo de o saber); o Texto não é a decomposição da obra, é a obra que é a cauda imaginária do Texto. Ou ainda: só se prova o Texto num trabalho, numa produção. A consequência é que o Texto não pode parar (por exemplo, numa prateleira de biblioteca); o seu movimento constitutivo é a travessia (ele pode especialmente atravessar a obra, várias obras).
(BARTHES, Roland. Da obra ao texto. In: O rumor da língua. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012, p. 67)
Ao conceituar Texto e obra, Roland Barthes efetiva
- Aum sofisma, ao concluir a oposição entre os conceitos com a metáfora da travessia.
- Buma análise, apresentando argumentos que contrapõem os dois conceitos. (alternativa correta)
- Cuma apologia, quando estabelece uma oposição entre os dois conceitos.
- Duma recomendação, ao indicar metodologicamente como elaborar um texto moderno.
- Euma informação, destacando os resultados da oposição entre os dois conceitos.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
Roland Barthes, neste trecho, está diferenciando dois conceitos fundamentais para a teoria literária: a obra (como um objeto físico e delimitado) e o Texto (como um campo dinâmico de significados e metodologias). Ele não apenas define, mas constrói uma argumentação para mostrar as particularidades de cada um.
(A) Incorreta: Um sofisma é um argumento enganoso ou falacioso. Barthes não apresenta um argumento enganoso; ele desenvolve uma distinção teórica complexa e coerente, utilizando a metáfora da travessia para ilustrar a natureza dinâmica do Texto, e não para concluir falaciosamente.
(B) Correta: Barthes realiza uma análise aprofundada, desmembrando e examinando as características de "obra" e "Texto". Ele apresenta diversos argumentos ("A diferença é a seguinte:", "A oposição poderia lembrar:", "Ou ainda:") que contrapõem esses dois conceitos, mostrando suas distinções ontológicas e metodológicas.
(C) Incorreta: Uma apologia é uma defesa ou justificação formal. Barthes não está defendendo um conceito em detrimento do outro de forma apologética, mas sim estabelecendo uma distinção teórica para melhor compreendê-los. Ele não busca "louvar" um e "denegrir" o outro, mas sim definir suas naturezas distintas.
(D) Incorreta: Barthes não está oferecendo uma recomendação sobre como escrever um texto moderno. Ele está conceituando o que é o "Texto" em um sentido teórico e filosófico, independentemente de sua cronologia, e não um guia prático de escrita.
(E) Incorreta: Embora o texto forneça informações, a ação principal de Barthes é mais profunda do que apenas "informar". Ele não se limita a destacar "resultados" da oposição, mas sim a construir e fundamentar a própria oposição através de uma análise detalhada e argumentativa das características de cada conceito.
Fonte: FCC ALAP 2019 Analista Legislativo - Técnico Legislativo (Caderno Tipo 005). Reproduzida para fins de estudo.