Questão nº 24
Questão de Língua Portuguesa · FCC ALAP 2019 (nº 24)
O texto não deve ser entendido como um objeto computável. Seria vão tentar separar materialmente as obras dos textos. Em particular, não se deve ser levado a dizer: a obra é clássica, o texto é de vanguarda; não se trata de estabelecer, em nome da modernidade, um quadro de honra grosseiro e declarar certas produções literárias in e outras out em razão de sua situação cronológica: pode haver "Texto" numa obra muito antiga, e muitos produtos da literatura contemporânea não são em nada textos. A diferença é a seguinte: a obra é um fragmento de uma substância, ocupa alguma porção do espaço dos livros (por exemplo, numa biblioteca). Já o Texto é um campo metodológico. A oposição poderia lembrar (mas de modo algum reproduzir termo a termo) a distinção proposta por Lacan: a "realidade" se mostra, o "real" se demonstra; da mesma forma, a obra se vê (nas livrarias, nos fichários, nos programas de exame), o texto se demonstra, se fala segundo certas regras; a obra segura-se na mão, o texto mantém-se na linguagem: ele só existe tomado num discurso (ou melhor, é o Texto pelo fato mesmo de o saber); o Texto não é a decomposição da obra, é a obra que é a cauda imaginária do Texto. Ou ainda: só se prova o Texto num trabalho, numa produção. A consequência é que o Texto não pode parar (por exemplo, numa prateleira de biblioteca); o seu movimento constitutivo é a travessia (ele pode especialmente atravessar a obra, várias obras).
(BARTHES, Roland. Da obra ao texto. In: O rumor da língua. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012, p. 67)
A distinção entre realidade e real pode remeter àquela que se estabelece, respectivamente, entre
- Alinguagem e discurso.
- Bregras e saber.
- Cclássica e cronológica.
- Dvanguarda e contemporânea.
- Esubstância e metodológico. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
O conceito-chave do texto é a diferença entre "obra" e "texto". A obra é o objeto físico e concreto (o livro), enquanto o texto é o campo de estudo, a prática de leitura e interpretação, algo dinâmico e conceitual.
- (A) Incorreta: Embora a linguagem e o discurso sejam elementos do texto ("o texto mantém-se na linguagem: ele só existe tomado num discurso"), eles não representam a distinção fundamental entre obra e texto da mesma forma que "substância" e "metodológico". Ambos os termos aqui se referem mais ao "texto" do que a uma oposição entre "obra" e "texto".
- (B) Incorreta: "Regras" e "saber" são características ou modos de existência do texto ("o texto se demonstra, se fala segundo certas regras"; "é o Texto pelo fato mesmo de o saber"), mas não a distinção primária entre obra e texto que o autor estabelece como análoga à de Lacan.
- (C) Incorreta: O autor explicitamente rejeita essa distinção, afirmando que "não se deve ser levado a dizer: a obra é clássica, o texto é de vanguarda" e que não se trata de uma situação "cronológica". Esta é uma armadilha, pois usa termos do texto para propor uma distinção que Barthes nega.
- (D) Incorreta: Assim como na alternativa C, o autor usa os termos "vanguarda" e "contemporânea" para refutar a ideia de que a distinção entre obra e texto se baseia em critérios cronológicos ou de movimento literário. Ele afirma que pode haver "Texto" em obras antigas e que muitos produtos contemporâneos não são textos.
- (E) Correta: O texto afirma diretamente: "a obra é um fragmento de uma substância, ocupa alguma porção do espaço dos livros... Já o Texto é um campo metodológico." Essa é a definição explícita que Barthes dá para a diferença entre "obra" e "texto", e que se alinha com a analogia proposta para a distinção entre "realidade" (que se mostra, como a obra-substância) e "real" (que se demonstra, como o texto-metodológico).
Fonte: FCC ALAP 2019 Analista Legislativo - Técnico Legislativo (Caderno Tipo 005). Reproduzida para fins de estudo.